O que quer a mulher brasileira?
Com a ajuda de seus alunos, Mirian, antropóloga e professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia do IFCS/UFRJ, selecionou 1300 homens e mulheres de classe média, área urbana e de diversas faixas etárias, divididos em 15 grupos focais, para responder ao questionário "Mudanças e continuidades nos papéis de gênero, sexualidade, infidelidade e corpo". Foram analisadas as seguintes questões: representações sobre homens e mulheres, corpo, beleza, atração sexual, casamento, infidelidade e sexualidade.
Destaques do ponto de vista feminino
Foram elencados dez principais anseios das mulheres brasileiras, sendo o primeiro deles, a liberdade.
Liberdade
30% delas admiram a liberdade masculina com relação ao corpo, ao comportamento sexual, à capacidade de brincar, de rir e de ter prazer, sem tanta preocupação com a opinião e a censura dos outros. Esse tópico é seguido de independência, salário maior, separar sexo de amor, sofrer menos ao se dedicar a uma relação amorosa. Elas dizem que precisam se levar menos a sério, e querem se preocupar menos com a opinião dos outros para poderem se divertir mais. Demonstram o medo de parecerem vulgares, fúteis, superficiais e, por isso, têm grande preocupação em se comportarem de forma mais séria e contida. Admiram a atitude masculina de rir dos próprios defeitos e tabus, de brincar com os amigos e de enfrentar os problemas com humor.
Reconhecimento
A mulher, principalmente a brasileira, está com a autoestima em alta nos últimos anos. Descobriu que é importante para o mercado e quer produtos para ela. Quer ser escutada e respeitada. Não quer ser invisível, dentro e fora de casa. Elas querem pertencer aos grupos sociais que são importantes (escola, faculdade, trabalho, amigos, amores, família, religião etc.), mas querem ser únicas. Querem o reconhecimento por ser especiais.
Poder de consumo
Com a ascensão no mercado de trabalho vem o poder de escolha e de compra. Melhor: de decisão. As mulheres da classe C (6 a 15 salários mínimos) são mais de 50% da população feminina que detêm o maior poder de compra: 80% do que é comprado nos supermercados, 60% dos salões de beleza, 80% conectados à internet: elas querem consumir mais, querem conforto, novidade e qualidade.
Corpo
Ao serem perguntadas sobre o que mais admiram em outras mulheres, 25% delas disseram o corpo (magro) e a beleza. Em seguida, detalharam: cabelos, seios, bumbum, barriga, pele, dentes. E, ainda, autoconfiança, autoestima, leveza, sensualidade, inteligência, capacidade de conciliar emprego e família, entre outras respostas. No Brasil, para as mulheres brilhantes, o corpo é um verdadeiro capital, mas o marido também é. O marido é o capital, considerado uma verdadeira riqueza, especialmente para as mulheres de 30 a 50 anos.
Família
Os principais desejos dessas mulheres brilhantes formam um tripé: filhos fazerem faculdade + casa própria + viagens/consumo. Para mais de 50% das pesquisadas, os filhos estão em primeiríssimo lugar. Interessante é que, apesar de a ideia de "família= casal + filhos" ser algo quase sagrado na cultura brasileira, o que essa nova mulher prioriza é o ter filhos, independente de ter marido.
Felicidade
"O que faria você mais feliz?", 70% delas deram respostas como: casa própria, filhos na faculdade, aumento de salário, mais dinheiro, ter um negócio próprio, viagens, carro novo, emagrecer dez quilos, fazer lipoaspiração, colocar silicone no peito, etc. 35% das pesquisadas mencionaram a importância de ter mais tempo para os próprios prazeres. "Qual o momento mais feliz do seu dia?", 65% citaram situações como: "Quando meu marido me abraça carinhosamente"; "Quando meus filhos dizem que sou a melhor mãe do mundo" ou "Quando meu chefe me elogia".
Orgulho do lar
A casa é motivo de orgulho: gosta da casa sempre limpa, cheirosa e gostosa. A limpeza da casa tem um valor simbólico e emocional: significa, para elas, poder, admiração, intimidade, aconchego, organização, harmonia, qualidade de vida, status, saúde, beleza, prazer, felicidade.
Contradições
Mirian estuda o comportamento e os tipos femininos há vários anos. Para entender melhor e dissecar os dados obtidos com as brasileiras, ela fez o comparativo com outras culturas, como a europeia, especialmente a alemã. A mulher brasileira tem desejos, mas não arrisca assumir as escolhas, por isso, segundo a análise dos resultados, se vê tanta contradição nos sentimentos. Ao mesmo tempo em que ela quer liberdade de escolha, tempo para ser ela mesma, também quer uma família, o compromisso de estar presente e servir o outro. As mulheres mais velhas, especialmente a partir dos 40 anos, colocam o foco no próprio prazer, e passam a valorizar, cada vez mais, a liberdade que conquistaram. Mais maduras e independentes, elas ousam e passam a ser elas mesmas com muito mais segurança: riem mais, namoram homens mais jovens, vestem as roupas que são mais confortáveis, fazem tatuagem etc. As mais jovens buscam muito mais a aceitação dos outros, o pertencimento aos grupos (família, trabalho, amigos, amores).
Em relação a outras culturas, pode-se dizer que o Brasil é uma cultura da soma, do E. A brasileira quer trabalhar E casar E ter filhos E ser magra E cuidar do próprio corpo E ser sexy. Já a mulher alemã, por exemplo, vive em uma cultura da escolha, a cultura do OU. Muitas escolhem investir na profissão, e optam por não casar OU ter filhos. Escolha que é muito mais legítima lá do que aqui.
O ponto de vista masculino
Com exclusividade para o Yahoo!, Mirian disse que são muitos pontos de análise nesse conjunto de pesquisas e que dá margem para vários estudos paralelos. Sobre o ponto de vista masculino, salienta que o mais interessante é que se faz um julgamento muito racional do homem, principalmente, em relação a corpo e desejo sexual. Segundo ela, os dados recolhidos nos grupos focais mostram que os homens não querem a mulher novinha, magrinha, com corpo perfeito e que só é boa para o sexo. "Nada disso. O que é mais legal e curioso é que eles querem é compreensão. Uma mulher parceira, que pense em prol do relacionamento, de algo sério e em construção conjunta. Estão fazendo a gente pensar tudo errado".
A pesquisa foi encomendada pela marca Brilhante, uma das mais conhecidas da linha de produtos de limpeza da Unilever. O objetivo é entender melhor as consumidoras e suas histórias de vida. Estiveram presentes no encontro a jogadora de vôlei do Unilever/Rio, Natalia Pereira, Carla Pernambuco, uma das mais conhecidas e conceituadas chefs de cozinha do Brasil, Catia Farias, a doceira dona do "Bendito Quindim" e Mônica Gonçalves, consumidora da marca. O bate papo foi mediado pela jornalista e apresentadora Astrid Fontenelle. Todas elas tem em comum um momento de superação em suas trajetórias.