São Paulo – O emprego se manteve em 2013, apesar das expectativas contrárias, ou da torcida, de analistas. Houve mesmo quem propusesse um pequeno aumento do desemprego para ajudar no combate à inflação, ou quem escrevesse que, apesar de tantos acontecimentos negativos, as empresas "ainda" não tinham demitido. Posições ideológicas ou desvios semânticos à parte, o mercado de trabalho efetivamente perdeu ritmo, embora continue abrindo vagas. Mas não se pode desconsiderar o fato de que, em boa medida, a redução dos índices de desemprego se deva à menor busca por trabalho, o que reduz a pressão no mercado e ajudar a empurrar as taxas para baixo.
O desemprego caiu. É um fato. Vem caindo sistematicamente, de maneira quase ininterrupta, há dez anos, o que mostra reversão de um processo corrente nos anos 1990 e 2000, de redução de empregos, especialmente os formais. Mas o ritmo de abertura de vagas também se reduziu. É outro fato. Entre fatos e versões, o desempenho do mercado de trabalho em 2014 se apresentará como um tema central do debate eleitoral. Até aqui, prevalece a expectativa de que será um ano sem anormalidades, ou seja, sem grandes variações para baixo ou para cima.
Em novembro, último dado disponível, a população economicamente ativa (PEA) diminuiu 1% nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, em relação a igual mês de 2012: são 247 mil pessoas a menos. Isso fez com que, mesmo com 170 mil vagas eliminadas nesse período, o número de desempregados caísse em 77 mil (-6,4%).
Apenas de outubro para novembro foram 139 mil desocupados a menos nas seis regiões. Mas o gerente da pesquisa do IBGE, Cimar Azeredo, observa: "Essa queda não ocorreu em função do aumento da população ocupada, foi em função do aumento da inatividade." Ele acredita que o quadro ficará mais claro com a divulgação dos resultados finais de 2013, mas apresenta hipóteses. Pode haver casos em que a pessoa já foi contratada para começar a trabalhar e não precisou mais buscar emprego. "Ou, em função de aumento do rendimento familiar, as pessoas estão tendo menos necessidade de procurar trabalho."
Os dados da pesquisa da Fundação Seade e do Dieese, embora tenham metodologia diferente da do IBGE, mostram tendência semelhante. A taxa de desemprego segue em níveis baixos, mas a dinâmica se dá principalmente pela menor busca por emprego. A PEA praticamente não variou em 12 meses, até novembro: 0,2% corresponde a um acréscimo de 34 mil pessoas, em um universo de 19 milhões de ocupados. Mas a informação positiva é de que, mesmo de forma mais tímida, a ocupação cresce continuamente há sete meses. Em relação a novembro de 2012, são 125 mil empregos a mais.
Nos dois casos, as taxas médias anuais deverão ser menores que as de 2012. A média de janeiro a novembro, pelo IBGE, mostra 5,5%, pouco abaixo de igual período do ano passado (5,6%). Em novembro, chegou a 4,6%, menor nível histórico.
"Tem uma menor pressão da PEA, menos jovens e menos mulheres pressionando no mercado de trabalho", observa o diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio. Ele lembra que ainda há muita criação de empregos com salários menores e menor duração, com alta rotatividade, principalmente nos serviços e no comércio, que são os que mais abrem vagas, já que a indústria ainda enfrenta problemas. "Estamos no limite do que a gente pode chamar de uma certa estabilidade no emprego."
Para o coordenador de análise da Fundação Seade, Alexandre Loloian, este foi um ano "típico" para o mercado de trabalho, com algum crescimento do desemprego nos primeiros meses e recuperação no segundo semestre. "Tivemos um início de ano horroroso, muito ruim, e depois houve uma recuperação, nada espetacular", comenta. Mas ele também critica as "previsões exageradamente pessimistas" de alguns comentaristas. E destaca o "crescimento constante" do emprego com carteira assinada, ainda que em ritmo menor. Em 12 meses, até novembro, a região metropolitana de São Paulo abriu 160 mil vagas formais, segundo a pesquisa Dieese/Seade. Nesse período, caiu principalmente o emprego de autônomos e empregados domésticos.
Pela mesma pesquisa, os empregados com carteira assinada em São Paulo somavam 3,165 milhões dez anos atrás. Agora, são 5,312 milhões, um crescimento de 68%. Os sem carteira foram de 1,074 milhão para 889 mil, queda de 17%. E essa mesma base comparação não deixa dúvida quanto à melhoria do mercado de trabalho: o total de dezembro passou de 1,976 milhão para 1,024 milhão, redução de 48%, enquanto o número de ocupados aumentou 24%, para 9,874 milhões (1,9 milhão a mais). Segundo o IBGE, hoje os empregados com carteira são maioria (50,6%) entre os ocupados.
Os números oficiais do mercado formal, fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), também demonstram mais vitalidade nos dez últimos anos. De 1992 a 1999, o saldo do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) só foi positivo em 1993 e 1994. De 1995 a 2002, o país só criou 800 mil vagas com carteira assinada. De 2003 a 2010, 11 milhões.
TARSO VÊ LUTA IDEOLÓGICA ACIRRADA EM 2014

Em entrevista à Carta Maior, governador do Rio Grande do Sul comemora crescimento do Estado e critica gestão passada: “ o Governo esteve nas mãos do mais puro PSDB - que se elegeu num lance de sorte e com um apoio galopante da maioria da mídia - mas também porque tem um polo ideológico mais histórico, originário da ditadura militar, a velha Arena representada pelo PP”
25 DE DEZEMBRO DE 2013 ÀS 10:02
247 – Em entrevista a Marco Aurélio Weissheimer, da
Carta Maior, governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, faz um balanço de três anos de governo e responde às críticas da oposição. Leia um trecho:
Porto Alegre - Em entrevista à Carta Maior, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, faz um balanço de três anos de governo e responde críticas de partidos de oposição. Tarso prevê um debate programático e ideológico em 2014 e avalia que luta política e luta ideológica estão plenamente fundidas no Estado que foi governado recentemente pelo PSDB mais puro (com Yeda Crusius) com apoio de um “polo ideológico mais histórico, originário da ditadura militar, a velha Arena representada pelo PP”. Respondendo às críticas de que o atual governo estaria “gastando demais”, o governador afirma:
“Nosso programa parte do pressuposto que é possível fazer o Estado sair da crise, qualificar os seus serviços, combater a pobreza extrema, com crescimento que gere empregos e não com encolhimento que gera pobreza e desemprego. Ele se opõe a este olhar simplista e medíocre, representada especialmente pelo Governo Yeda, cuja síntese foi a visão meramente contábil do "déficit zero", que, aliás, é uma invenção midiática”.
E enfatiza os atuais números da economia do Estado, cujo desempenho foi superior à média nacional em 2013. O Produto Interno Bruto gaúcho deverá fechar 2013 em torno de 6%, mais que o dobro do índice nacional. No segundo trimestre, enquanto a média brasileira apontou um crescimento de 3,3%, a economia gaúcha cresceu mais de 15%. O acumulado no primeiro semestre chegou a 8,9%, de acordo com a Fundação de Economia e Estatística (FEE), índice superior aos 2,6% registrado para o conjunto de regiões do Brasil. O valor exportado do ano alcançou a cifra de US$ 17,5 bilhões, um aumento de 28,6%, o terceiro Estado em exportação. A safra gaúcha bateu recordes este ano e a indústria cresceu 6,1%, o maior crescimento segundo pesquisa do IBGE, enquanto a média brasileira situa-se em 1,6%.
Na entrevista, Tarso também fala sobre as eleições de 2014 e diz que a sua candidatura à reeleição ainda não está definida. “Estamos criando as condições externas e internas para declarar, ou não, a minha candidatura. Penso que não serei o candidato mais indicado, por exemplo, se o nosso partido, nacionalmente, decidir que a Presidenta deverá ter aqui dois palanques”, afirma.
Carta Maior: O Rio Grande do Sul apresenta o maior índice de crescimento do país este ano. No entanto, partidos de oposição como o PP e o PSDB criticam a orientação do atual do governo dizendo, entre outras coisas, que está gastando demais? Qual a sua resposta a essas críticas?
Tarso Genro: Talvez o nosso Estado seja aquele em que a luta política e a luta ideológica estejam mais plenamente fundidas, não somente porque recentemente o Governo esteve nas mãos do mais "puro" PSDB - que se elegeu num lance de sorte e com um apoio galopante da maioria da mídia - mas também porque tem um polo ideológico mais histórico, originário da ditadura militar, a velha Arena representada pelo PP, que aqui sempre fez opções à direita e não ao centro, como eventualmente ocorre em outras unidades da Federação.
Desta união de partidos e setores de classes, articula-se, ora ganhando para seu campo outros partidos tradicionais, um bloco com apoio majoritário dos grandes empresários locais e cujo centro programático parte sempre do seguinte: as finanças públicas estão em ruína porque o Estado tem funcionários demais, os incentivos fiscais devem predominantemente atrair grandes montadoras para "puxar" o desenvolvimento, o salário mínimo regional faz o Estado "perder competitividade", os agentes públicos em geral são incompetentes, o mal do "corporativismo" é que sempre impediu o Estado de decolar e o que nós precisamos é de mais incentivos fiscais, menos impostos, mais obras de infraestrutura e mais privatizações.
Como se funde, no concreto, a política e a ideologia? De uma parte, reduzindo as funções públicas do Estado para mostrar, a partir daí, que ele é uma máquina lenta que só atrapalha os bons empresários e, de outra, criticando os gastos públicos de natureza social e os que são destinados a recuperar aquelas funções públicas, que eles desbaratam quando estão no Governo.
Carta Maior: Em que aspectos fundamentais sua visão de governo difere da oposição?
Tarso Genro: O nosso programa de governo só foi possível ser implementado com apoio do Governo Federal. Ele se opõe a este olhar simplista e medíocre, representada especialmente pelo Governo Yeda, cuja síntese foi a visão meramente contábil do "déficit zero", que, aliás, é uma invenção midiática. Nosso programa parte do pressuposto que é possível fazer o Estado sair da crise, qualificar os seus serviços, combater a pobreza extrema, com crescimento que gere empregos e não com encolhimento que gera pobreza e desemprego. Para tanto, é preciso atrair investimentos públicos e privados que energizem a base produtiva local, que se acoplem nela - por exemplo ajustando as encomendas dos seus insumos para dentro do Estado - e saindo do sufoco financeiro pela reestruturação da dívida pública, o que já está em curso.
É preciso, neste novo contexto político e econômico, não sucatear, mas ampliar os direitos sociais: melhorar os salários dos servidores, ampliar o quadro de funcionários de acordo com as reais necessidades da prestação de serviços e utilizar as agências financeiras do Estado para incentivar a produção de baixo para cima, ou seja, desde a agricultura familiar, até as médias e pequenas empresas locais, que aqui no Rio Grande do Sul compõem uma vasta rede com centenas de cooperativas de grande importância na história econômica e produtiva do Estado.
Sair da crise crescendo, não caindo na armadilha funesta do neoliberalismo, que reza ser um dever penalizar os mais pobres, para melhorar a vida de todos num dia inatingível. As grandes empresas pautam, hoje, seus investimentos mais pelo ambiente social e político das regiões, do que exclusivamente por incentivos unilaterais que elas sabem que nem são bem recebidos pelas comunidades em que elas se instalam.