.

Nosso objetivo não é engrandecer um homem, o Presidente Lula, mas homenagear, como brasileiro que ama esta terra e esta gente, o que este homem tem provado, em pouco tempo, depois de tanto preconceito e perseguição ideológica, do que somos capazes diante de nós mesmos, e do mundo, e que não sabíamos, e não vivíamos isto, por incompetência ou fraude de tudo e todos que nos governaram até aqui. Não engrandecemos um homem, mas o que ele pagou e tem pago, para provar do que somos.

.

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eleições de 1989 - Wladimir Pomar (2)

.(Clik no item buscado, quando vermelho use o Ctrl+F para encontrar na página)

Justificando

a aventura de contar

Um frio na espinha

1. Um sonho irreal

2. O susto dos raivosos

3. O susto dos nossos

4. Vontade e realidade

Descrenças e fatos

1. Uma longa história

2. Desmentidos pelos fatos

3. Esmagando as esperanças

4. Falência de um projeto

5. As estrelas contestadoras

Estratégia para ganhar

1. Momento favorável

2. O PT faz alianças, quem diria?

3. Um programa das maiorias

O Império não perdoa

1. Interesses divididos

2. O fim da trégua

3. Collor: uma estratégia de combate

4. No fundo do poço

.

.

.

Índice

Virando o jogo

1. Final de novela

2. Contra-ofensiva massiva

3. Vitória

4. Mídia, uma nave do Império

Armas desiguais

1. Compensando as fraquezas

2. Um episódio de audácia

3. Atrasados para a nova rodada

O Brasil já não é o mesmo

1. O Império joga sujo

2. As reservas estratégicas

3. Nem todos despertaram

4. Mitos derrubados

5. O choro do sonho desfeito

6. Um doce sabor de vitória

Créditos

Anexo

Sobre o autor

.

O Livro

Virando o jogo

Precisamos, sobretudo, fazer de nossa

campanha uma campanha massiva, capaz

de ajudar a fazer crescer o nível de

consciência política de nossa sociedade,

como única forma de garantir a vitória, de

assegurar a posse e de garantir o governo.

Lula, Seminário PT: um projeto para

o Brasil, abril de 1989

1. Final de novela

Verdade: a candidatura Lula patinava no fundo do

poço. Ou parecia patinar. A novela da escolha do

vice, em particular, era angustiante. Comentaristas

e analistas políticos, interpretavam que a queda da

candidatura Lula provocava polêmica acalorada entre

os que a apoiavam, em grande medida para ganhar

espaço na disputa pelo lugar do vice na chapa.

Essa polêmica, tendo como centro a questão do

vice, tanto dentro do PT quanto dentro da Frente Brasil

Popular, durou mais de 60 dias. O PT, na perspectiva

de construir uma coligação mais sólida e disputar para

vencer a campanha eleitoral, desde o início abrira mão

de indicar o candidato a vice. Isso pelo menos é o que

decidira a direção nacional do partido, o que não impedia

que internamente existissem agrupamentos de

filiados, militantes e dirigentes que continuavam advogando

um vice oriundo das próprias fileiras. Às vezes

as motivações eram diferentes, mas todas convergiam

para o mesmo objetivo.

84

QUASE LÁ

As dificuldades dos partidos da Frente em escolher

um nome de projeção nacional, que complementasse

a candidatura Lula, alcançasse o consenso

dentro da Frente Brasil Popular e recebesse a consagração

da militância petista eram, por outro lado,

grandes e reais. Em tais condições era até natural

que alguns nomes do PT, como Benedita da Silva,

despontassem com vitalidade. Deputada federal pelo

Rio de Janeiro, Benedita apoiava a idéia de um candidato

de fora do PT, mas mesmo assim teve seu

nome lançado por companheiros que militam no movimento

negro e no movimento popular, angariou

muitos apoios e aparentou alguma chance até junho.

Mesmo entre os partidos da Frente ela suscitava

simpatias, mas a questão em jogo era cumprir o

acerto de um candidato a vice de fora do PT para

ampliar a Frente e sua base de sustentação.

Outros nomes petistas, como Paulo Freire, Virgílio

Guimarães e Olívio Dutra, também afloraram no bojo

das dificuldades encontradas pela Frente Brasil Popular

para definir o candidato a vice. A direção nacional

do PT não só abrira mão de indicar essa candidatura,

como reiteradamente declarara aos outros partidos

da Frente que cabia a eles tal indicação. Só

que, entre eles, quem se firmava paulatinamente era

o PV, com a indicação de Fernando Gabeira.

Na verdade, o PV traçou como estratégia jogar o

nome de Gabeira na sociedade, como disputante da

vaga de vice na chapa de Lula, e fazer campanha

dentro do próprio PT a favor de seu nome, na suposição

de que, no frigir dos ovos, o que ia decidir mesmo

na escolha era o peso do PT. Embora alguns de

85

QUASE LÁ

nós não concordassem com essa postura, em nenhum

momento colocamos em pauta sua legitimidade e a

achamos natural dentro das regras democráticas.

A estratégia do PV para garantir a indicação de

Gabeira teve um duplo movimento. Por um lado, afirmou

estar disposto a abrir mão de uma candidatura

própria para fortalecer o PT e não fazer campanha

para indicar o vice de Lula, aceitando porém a vaga

se Gabeira fosse convidado. Por outro lado, deixava

clara sua posição de que o fortalecimento do PT visava

levá-lo a aproximar-se das posições que o PV

considerava importantes e instava o PT a manter

coerência na hora da escolha do vice.

Na sua pretensão de orientar politicamente a campanha

de Lula, os dirigentes do PV chegaram inclusive

a fazer críticas públicas às posições de Lula e do

PT. Alfredo Sirkis, que também é vereador no Rio de

Janeiro, afirmou a O Povo, no dia 12 de maio, que a

Frente Brasil Popular queria que Lula tivesse uma

postura de maior distanciamento do movimento sindical,

enquanto Carlos Minc, deputado estadual também

pelo Rio de Janeiro, conclamava Lula, pelas

páginas do Jornal do Brasil de 13 de maio, a parar

de agir como líder sindical nas portas de fábricas e

de fazer críticas à Fiesp.

No momento em que Lula e o PT sofriam a violenta

ofensiva contra o que a imprensa chamava de

grevismo, aquelas críticas soaram como uma soma

ao lado de lá. E obrigaram Lula a reafirmar publicamente

que seu discurso não mudaria e que se tivesse

que ficar contra os trabalhadores em greve para

melhorar seu desempenho eleitoral, preferia deixar

86

QUASE LÁ

de ser candidato e ficar ao lado dos trabalhadores.

Em reunião da Frente, o PV explicou e retificou

sua posição e o incidente foi considerado superado.

Mas a questão do vice continuava. A imprensa entrou

firme na disputa, explorando toda e qualquer

fissura, por mais insignificante que fosse. Gabeira

ganhou espaços inimagináveis em outras circunstâncias.

Dirigentes do PT, como José Genoíno, também

conseguiam espaços na mídia para declarar apoio a

Gabeira por supostamente incorporar uma temática

moderna à candidatura Lula. O modernismo de

Gabeira, destinado a arejar mentes e práticas esclerosadas

na Frente e no PT, era a palavra de ordem

chave para a conquista da indicação.

Notícias dando conta de que saíam da própria direção

da campanha informações sobre a inviabilidade

da candidatura a vice de Fernando Gabeira na chapa

da Frente (ver, por exemplo, a Folha de S.Paulo de

27 de maio), serviam, por sua vez, para minar a confiança

das bases petistas na condução do processo

pela direção, ao mesmo tempo que Gabeira reafirmava

sua disposição de trabalhar pela vitória de Lula

qualquer que fosse o resultado obtido para a escolha

do vice.

O PSB, por seu turno, reivindicava o direito de

indicar o candidato a vice pela Frente. Primeiro lançou

o nome de seu presidente, Jamil Haddad, exprefeito

e senador pelo Rio de Janeiro, que encontrou

pequena receptividade dentro da Frente e menos

ainda dentro do PT. Depois, apresentou Antonio

Houaiss, intelectual de renome, um dos fundadores

do partido e socialista de longa data. O PSB, entre87

QUASE LÁ

tanto, negou-se por um longo período a apresentar

o nome de seu candidato a candidato para disputa

na sociedade. E, quando o fez, com o nome de

Houaiss, o de Gabeira já estava cristalizado em razoáveis

parcelas da militância do PT e na imprensa.

O PCdoB não reivindicava nenhum nome próprio

para a disputa, mas desde o começo deixou evidente

sua posição de que não aceitaria de modo algum

outro nome do PT para a chapa e que trabalharia

por alguém que considerasse capaz de ampliar a sustentação

política da Frente. Durante um bom tempo

o PCdoB trabalhou por um nome suprapartidário,

apoiando os esforços para conseguir a aquiescência

do jurista Raymundo Faoro. Depois tentou

alguém da ala progressista do PMDB, como Arraes

ou Jarbas Vasconcellos, chegando a aceitar a possibilidade

Houaiss.

O PCdoB via em Gabeira uma indicação que restringiria

a base de sustentação da candidatura Lula, o

que levou o PV, em diversos momentos, a afirmar que

sua indicação sofria vetos e que tais vetos não tinham

propriamente uma conotação política. Tratar-se-ia mais

de preconceitos comportamentais. Finalmente, o

PCdoB desenvolveu esforços para atrair o reitor da

Universidade de Brasília, Cristovam Buarque.

O problema é que não se chegava a acordo entre

os partidos da Frente, esgotando-se os prazos para a

decisão a respeito. A situação, confluiu para o 6o

Encontro Nacional do PT, no início de junho, que

teria de escolher entre Gabeira e Houaiss, sem deixar

de lado as propostas em torno de um nome petista.

Na direção do PT havia consenso de que a escolha

88

QUASE LÁ

deveria recair sobre alguém de fora do partido, mas

formaram-se praticamente três correntes, todas partindo

do pressuposto de que a continuação da Frente

era fundamental para assegurar a vitória.

Uma corrente ponderável, representada por Plínio

de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo e Francisco Weffort,

era contrária à aprovação do nome de Gabeira por

considerar que ele prejudicava a continuidade da Frente

e abriria enormes flancos aos ataques dos candidatos

adversários. Outra, defendida particularmente por

José Dirceu, Luis Gushiken e José Genoíno, apostava

na manutenção da Frente mesmo com o lançamento

de Gabeira e trabalhava para ver seu nome aprovado

no 6o Encontro. Uma terceira, representada por

Eurides Mescolloto e Geraldo Magela, e na qual eu

me incluía, considerava que a escolha de Gabeira ou

Houaiss levaria ao rompimento da Frente, sendo

necessário que o Encontro delegasse ao Diretório

Nacional a tarefa de buscar um terceiro nome que

mantivesse a coligação.

Na reunião da Comissão Executiva Nacional, realizada

no curso do próprio Encontro, venceu a proposta

de levar ao plenário a disputa entre Houaiss e Gabeira,

caso ficasse descartada a preliminar da busca

de um terceiro nome – como realmente aconteceu.

O Encontro preferiu Gabeira por boa margem sobre

Houaiss. Mas, para efeito de acerto posterior na Frente,

essa escolha foi indicativa, e o Diretório Nacional

autorizado a negociar e até mesmo trocar o nome

escolhido. Na prática, deixou-se aberta a possibilidade

de manter unificada a Frente, se o escolhido pelo

PT encontrasse resistências intransponíveis.

89

QUASE LÁ

A preferência do PT por Gabeira foi considerada

inaceitável pelo PSB e PCdoB, ficando a Frente dividida

em dois contra dois. Pelo acordo de constituição

da Frente, o PT, através do seu candidato, poderia

dar a palavra final, desempatando a disputa. Mas

isso significaria, sem dúvida, a desagregação da aliança,

o que se chocava com a idéia predominante no

PT de que a Frente Brasil Popular era mais importante

do que o vice.

Para piorar as coisas, o discurso de Gabeira no

Encontro do PT, logo após a sua escolha, foi no mínimo

infeliz. Procurou explorar uma possível divergência

entre a direção e as bases do PT, dizendo-se

preferido das bases apesar da restrição da direção, e

lançou-se na aventura de ditar a linha de campanha

que pretendia imprimir a partir daquele momento.

Com isso, conseguiu de imediato colocar contra si

não só a grande parcela da direção que o apoiara na

disputa, como muitos daqueles militantes que tinham

preferência por ele.

Nessa situação, depois de constatarmos não ser

possível contar com Cristovam Buarque, o nome do

senador José Paulo Bisol, então do PSDB, ressurgiu

como viável. Ressurgiu é mesmo o termo, porque

ele havia sido cogitado logo no início do processo e

só não foi convidado porque a construção da Frente

estava dando seus primeiros passos naquele momento

e havia dúvidas se o senador aceitaria deixar o

PSDB. Sua indicação, na primeira semana de julho,

colocou fim à novela da escolha do vice.

Não foi um final completamente feliz. Pareceu

mais um desses finais abruptos que caracterizam

90

QUASE LÁ

algumas séries de tevê, onde alguém entra para dar

gancho a outra novela, como ocorreu com Bisol. Ou

onde alguém sai antes para trabalhar em outra novela,

como aconteceu com Gabeira e o PV. Abandonaram

a Frente e lançaram candidatura própria, apesar

de todas as juras anteriormente feitas de sua

disposição de colar cartazes, distribuir boletins e participar

dos mutirões da candidatura Lula, qualquer

que fosse a escolha final. Parece até que não acreditavam

na possibilidade de Lula sair dos baixos índices

que ostentava e resolveram salvar-se antes do

desastre imaginado. Verdade ou não, o resto todos

conhecem.

2. Contra-ofensiva massiva

Durante o mês de junho os índices de Lula haviam

continuado a cair e em julho estagnaram em torno

de 6%. A coordenação da campanha teimava na linha

de mobilizações, mas não eram raras as pressões

para que fosse substituída pela presença concentrada

do Lula nos rádios e tevês, participando de

programas de entrevistas e debates. Pouco adiantava

afirmar que havia indícios de recuperação e crescimento,

quando as pesquisas simplesmente não

davam qualquer sinal disso. Hoje fico me lembrando

de que ninguém acreditava em pesquisa, mas na hora

do argumento eram elas que valiam.

Assim, corremos o sério risco de modificar a linha

de mobilização massiva em função das pressões

quase insuportáveis que os resultados das pesquisas

geravam. O que salvou a continuidade da estratégia

91

QUASE LÁ

traçada ainda em 1988 foi o roteiro anteriormente

preparado para o Nordeste e o Norte, onde os comícios

fizeram aflorar um ânimo e uma disposição de

novo tipo na militância e na população, apontando

nitidamente para a ocorrência de um processo de

virada.

Na realidade, havíamos iniciado esse processo no

comício de 13 de maio em São Bernardo do Campo,

dentro do cronograma da campanha. Daí em diante,

por todo o Brasil, houve um crescente envolvimento

da militância petista e da Frente Brasil Popular no

corpo-a-corpo com a população, politizando o debate

e chamando os trabalhadores e o povo a mudar a

cara do Brasil. Essa não era nem poderia ser uma

linha eventual de trabalho. A participação popular

não é, para nós, um mote propagandístico, utilizável

de acordo com as circunstâncias do momento.

Acreditamos na força da mobilização popular, inclusive

como forma de abrir espaço numa mídia nem

sempre permeável a nossos fatos políticos.

No caso específico da disputa presidencial de

1989, dada a extrema disparidade de meios materiais

entre as diversas candidaturas do Império e a

nossa, a candidatura Lula só teria viabilidade de vitória

se, realizados os passos políticos quanto à elaboração

programática e à costura das alianças, demonstrasse

um caráter massivo. O próprio processo

para acertar as alianças dependia, em grande medida,

da militância petista ser capaz de articular a

imagem do Lula com idéias-força simples que estimulassem

a espontaneidade, a iniciativa e a participação

populares em larga escala,dando-lhe uma vi92

QUASE LÁ

sibilidade igual ou superior à da campanha das diretas-

já em 1984.

No início da campanha, Lula era o único candidato

com uma estratégia definida de mobilização, com

a programação de atos massivos e comícios. Os demais

candidatos, conforme constatava em maio a

Folha de S.Paulo, haviam programado um corpo-acorpo

com suas bases somente no começo da campanha,

dedicando depois tempo integral para as aparições

no rádio e TV. Comícios só com a garantia de

platéia razoável. Collor chegou a reconhecer que

percebera ser importante ir aos comícios para melhorar

o ânimo na TV.

Nós, ao contrário, já antes do comício de 13 de

maio realizávamos esforços, nem sempre bem sucedidos,

para botar a campanha na rua e buscar o povo

como a base principal para sairmos das dificuldades.

Nossa militância inaugurou comitês populares

em centenas de cidades, lançou a candidatura Lula

em todo lugar onde houvesse oportunidade para isso

e realizou plenárias com apoiadores e simpatizantes

para discutir o engajamento na campanha. Formouse,

assim, a massa crítica para dar a virada.

O comício do dia 13 de maio não foi um grande

comício. Embora as coisas tenham transcorrido razoavelmente

(nem mesmo o telefonema avisando que

havia uma bomba sob o palanque chegou a prejudicar

o andamento do ato), não existia ainda um clima

de muita animação, nem muita disposição de luta.

Chamou nossa atenção o fato de que comparecera

quase tanta gente do interior quanto da capital e do

ABCD. A rigor, talvez não tenha contado com a pre93

QUASE LÁ

sença de 20 mil pessoas, mas serviu para dar o pontapé

a um processo que deveria se tornar irreversível.

Entre o 13 de maio em São Bernardo e o 17 de

setembro na Praça da Sé, em São Paulo, Lula participou

e falou em 53 comícios, para 300 mil pessoas,

em 14 estados. Um comício a cada dois ou três dias,

com a média de seis mil pessoas em cada um. Não

era muito, mas foi o bastante para fazer com que os

outros candidatos mudassem suas previsões e estratégias

e se lançassem à realização de comícios, cavando

platéia de qualquer maneira.

A militância petista, embalada pela aceitação e

simpatia crescente que a candidatura Lula despertava,

passou a mostrar cada vez mais a garra e a

fibra que sempre a caracterizaram. Com criatividade,

produzia material de propaganda, vendia adesivos

e broches, conseguia contribuições e abria espaços

na própria imprensa que majoritariamente trabalhava

contra Lula. O comício de 60 mil pessoas,

no dia 17 de setembro, na Praça da Sé, foi o primeiro

grande comício da campanha, apontando no sentido

de que estávamos mesmo entrando numa nova

etapa do jogo.

Mas esse era o sentimento da coordenação, daqueles

que participavam das viagens com Lula e que

nos mantinham informados, por dezenas de fios, dos

números de cada comício, da animação ou desânimo

da população presente, dos fatos pitorescos ou

dramáticos ocorridos, da combatividade ou frouxidão

da militância e da organização quase sempre

desorganizada da maioria dos atos, apesar do esforço

dos companheiros responsáveis. Isso porque no fim

94

QUASE LÁ

de setembro Lula ainda se encontrava com índices

entre 7% e 8% nos principais institutos de pesquisa.

É certo que uma leitura mais atenta das pesquisas

nos fazia supor mudanças razoáveis no quadro eleitoral.

Collor despencara para 33% das preferências eleitorais,

perdendo 5,7 milhões de intenções de voto

em 30 dias; Brizola continuava estacionado nos 14%;

Covas e Maluf não saíam do patamar de 6%, enquanto

Afif apresentava uma tendência de crescimento que

não correspondia ao seu desempenho.

Em grande medida, só Lula podia aferir com razoável

grau de acerto, através da linha de mobilização

de sua campanha, o crescimento da receptividade

e do apoio a sua candidatura. Depois da Sé, Lula foi

a Teresina, São Luís, Macapá, Belém e Santarém.

Voltou a Fortaleza... Em um mês, até 17 de outubro,

Lula percorreu 30 cidades, levando mais de 400 mil

pessoas às praças públicas para vê-lo e ouvi-lo. Assim,

num único mês, fazendo um comício por dia

para uma média de 13 mil pessoas em cada um, reuniu

mais gente do que nos quatro meses anteriores.

Lula mesmo reconhece que o comício de Teresina

foi onde sentiu o clima de virada – na verdade, ele foi

obrigado a fazer dois comícios seguidos na cidade,

em virtude da enxurrada de pessoas participantes – e

o salto no entusiasmo da população e da militância,

de efeito contagiante, que a Rede Povo passou a aproveitar

muito bem como efeito multiplicador.

Essa linha mobilizadora intensificou-se entre 17

de outubro e 12 de novembro, quando Lula realizou

39 comícios, englobando um milhão e 400 mil pessoas,

uma média de mais de um comício por dia,

95

QUASE LÁ

cada um reunindo mais de 35 mil pessoas. Foi a arrancada

para colocar o Império na defensiva e garantir

o lugar no segundo turno.

Administrando sua escassez, a militância petista

e da Frente Brasil Popular fez das tripas coração,

criou fatos políticos e garantiu uma participação

popular cada vez mais ampla na campanha, não só

através dos comícios com Lula. Os comícios e atos

realizados com a participação de diferentes lideranças

nacionais e estaduais do PT e da Frente contaram

com uma presença da população que superou

quase sempre as melhores previsões.

Mas a mobilização massiva não se expressou somente

por meio dos comícios e grandes concentrações

populares. Foram o trabalho conjugado da militância

e as mobilizações setoriais que permitiram

a participação ativa na campanha dos mais diferentes

segmentos sociais. Foram inúmeros e diversificados

os encontros com sindicalistas, estudantes,

mulheres, jovens, deficientes físicos, negros, intelectuais,

favelados, categorias profissionais, artistas.

Eles refletiram, em certa medida, a inserção das propostas

da candidatura Lula nesses segmentos e suas

esperanças e vontade de não se sentirem apenas

como objetos da ação do governo, mas também como

sujeitos ativos das mudanças desejadas para a sociedade

brasileira.

Provavelmente por isso o processo de elaboração

do programa de ação de governo, o chamado PAG,

tenha incorporado tanta gente. E talvez pelo mesmo

motivo não haja exemplo na história brasileira

de uma participação tão ativa e engajada dos artis96

QUASE LÁ

tas numa campanha eleitoral, como a que ocorreu

na de Lula, contribuindo de forma decisiva para darlhe

a feição alegre e bonita que assumiu. Aos artistas

se deve ainda que o debate cultural tenha assumido

a proporção que alcançou.

Entretanto na estratégia de mobilização massiva

nós cometemos erros que nos custaram caro, particularmente

no segundo turno, mesmo que nos console

a suposição de que eles foram causados ou agravados,

em boa medida, por nossas dificuldades materiais.

Não conseguimos, por exemplo, trabalhar as

pequenas e médias cidades do interior onde a presença

do candidato, até mesmo simbólica, seria essencial.

Isso demandaria uma estratégia de visitasrelâmpago

a um grande número de localidades num

mesmo dia, a exemplo do que Collor fez, com uma

estrutura de comícios e de transporte que não possuíamos.

Por outro lado, isso poderia significar também

uma mudança em nosso empenho de transformar

a campanha eleitoral num vasto debate político,

numa verdadeira revolução cultural, na qual o

papel político e comunicador de Lula jogava um papel

essencial.

Lula teve um papel determinante na estratégia

de mobilização, tanto no aspecto político de sua

participação, quanto no que isso representou de esforço

físico, principalmente se levarmos em conta

que até setembro ele se deslocava pelo Brasil quase

exclusivamente em aviões de carreira. Os números

de sua participação são significativos: entre maio e

junho debateu em mais de 50 plenárias de militantes

e fez quatro viagens ao exterior, num total de 50

97

QUASE LÁ

dias de translados e contatos com governos e representantes

políticos e sindicais. Até o final da campanha

compareceu a mais de 40 programas de rádio e

tevê, concedeu inúmeras entrevistas exclusivas e coletivas,

participou das gravações dos programas de

rádio e tevê da campanha, esteve em todos os debates

entre os presidenciáveis e compareceu e falou em

mais de 150 carreatas, passeatas e comícios.

A rigor, a cada dois dias entre janeiro e dezembro,

ele participou de um comício. Esteve em 23

capitais, sendo mais de uma vez em 14 delas; em

mais de 50 cidades com mais de 100 mil habitantes;

e em 40 cidades com população entre 20 mil e 100

mil habitantes.

A contra-ofensiva massiva da campanha foi um dos

fatores principais para fazer com que Lula se recuperasse

da queda sofrida desde o primeiro semestre

e, a partir do fim de outubro, entrasse em ascensão.

Mas ainda havia armadilhas e obstáculos consideráveis

para chegar à vitória.

3. Vitória

Na reta final da campanha, o Império tentou armar

uma série de novas armadilhas. O caso Lubeca

e a tragédia da favela Nova República, em São Paulo,

foram as principais. No debate entre os presidenciáveis,

na Rede Bandeirantes, no dia 16 de outubro, o

desqualificado e petulante Ronaldo Caiado acusou a

Prefeitura de São Paulo de haver praticado corrupção

para aprovar o projeto Panamby, um projeto de

construção de um complexo imobiliário, da empre98

QUASE LÁ

sa Lubeca. E fez menção de mostrar dois cheques

que teriam sido destinados à campanha de Lula.

Sem qualquer prova consistente, como demonstraram

as investigações realizadas pela Polícia Civil

(estadual), pela Promotoria Pública, pela Polícia Federal

e pela Câmara Municipal da cidade, a acusação

caluniosa ganhou, porém, as manchetes dos jornais,

das rádios e das tevês, tentando mostrar que a

transparência pregada pelo PT não existia.

No caso do desabamento da favela Nova República,

a ação dos candidatos direitistas e da imprensa

orientou-se para demonstrar a incompetência do PT

na administração pública, acusando a Prefeitura de

São Paulo de haver sido negligente na prevenção do

acidente. Aliás, com ou sem motivos, as prefeituras

petistas estavam sempre voltando ao noticiário como

arma de luta contra a candidatura Lula.

Ataques e provocações de outros tipos foram enfrentados

na fase final pela campanha da Frente em todo o

país. Maluf, Camargo e Collor descambaram para o

anticomunismo aberto e multiplicaram as provocações

dos seus cabos eleitorais contra militantes do PT e

da Frente nos roteiros por onde Collor passava.

No entanto, apesar de tudo isso, apesar da truculência

da polícia e de alguns juízes eleitorais, como

os de João Pessoa e Recife, Lula chegou ao dia das

eleições quase certo da classificação para o segundo

turno. Por isso mesmo, a boca de urna do dia 15 de

novembro transformou-se numa grande festa democrática

que transbordou, nos dias seguintes, num

congraçamento da militância de todas as forças progressistas.

99

QUASE LÁ

Mas a angústia foi grande, principalmente pela

disputa palmo a palmo com Brizola. Ainda em setembro

o candidato do PDT aparecia como a alternativa

de esquerda a Collor. Embora estivesse estagnado

nos 14-15% das preferências eleitorais, ele trabalhava

com denodo para garantir sua ida ao segundo

turno, quando esperava ter a seu lado, num palanque

igual ao das diretas-já, Lula, Covas, Miguel Arraes

e até Ulysses Guimarães. Jogou pesado na probabilidade

do voto útil, que chamou de voto de consciência,

direto, elaborado pelo eleitor, mesmo sem acordo

entre as cúpulas partidárias. E, no último debate

entre os presidenciáveis, fez um apelo patético, emocionado,

para que votassem em qualquer um, menos

em Collor, o filhote predileto da ditadura.

Brizola mostrou toda a sua força no Rio de Janeiro

e no Rio Grande do Sul. No Rio conquistou mais

de 50% dos votos e no Rio Grande do Sul alcançou

mais de 60%. Mas, nos demais Estados, sua votação

só foi boa em Santa Catarina (25%) e razoável no

Ceará (18%), Paraná (14%) e Paraíba (13%). Em

Minas Gerais e São Paulo, Estados decisivos em qualquer

disputa nacional, Brizola teve um desempenho

abaixo do sofrível – menos de 4%.

Covas também contabilizou votos preciosos em

São Paulo, onde conseguiu 22% do eleitorado, e no

Ceará e Distrito Federal, onde obteve 17% dos votos.

Quanto a Collor, praticamente ganhou em todos

os Estados, com exceção do Rio de Janeiro, Rio

Grande do Sul, Distrito Federal e Santa Catarina.

Entretanto, a formidável vitória, a vitória política,

contra a lógica, contra as descrenças, contra os

100

QUASE LÁ

temores arraigados, foi a de Lula. Repetindo velhos

chavões, foi uma vitória do fraco contra o forte, da

pobreza contra o poder econômico, da dignidade

contra a indignidade.

Em síntese, é assim que se podem avaliar os resultados

obtidos por Lula no primeiro turno. Mais de

11 milhões e 600 mil votos são a expressão mais legítima

da força real de Lula e do PT, mesmo considerando-

se a participação efetiva do PSB e do PCdoB.

Colocaram à mostra, com bastante nitidez, os pontos

fortes e fracos desse partido que só tem existência

de 10 anos, mas ousou disputar o poder contra o

Império, desafiando todo descrédito e desprezo.

São também esses resultados que melhor exprimem

as dificuldades e as potencialidades de crescimento

do PT e de seus aliados da Frente Brasil Popular,

o papel que essas alianças desempenharam e

os efeitos da propaganda e da ação da militância

engajada na campanha.

Lula obteve votações acima de 20% em Minas,

Espírito Santo, na maioria dos estados do Nordeste

(Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte

e Piauí), assim como no Amazonas, Amapá e Distrito

Federal, onde foi o primeiro colocado. Em geral,

mostrou crescimento acentuado na maioria das

grandes cidades e capitais. Nas cidades médias e

pequenas, embora seja possível detectar certo crescimento

em comparação com a votação do PT nas

eleições anteriores, a votação de Lula esteve abaixo

das expectativas. O que aconteceu também em São

Paulo, capital e Estado, e em algumas grandes cidades

onde o PT é governo – Porto Alegre, Vitória,

101

QUASE LÁ

Campinas, Santos [ver quadro do desempenho nos

estados e capitais].

Quadro do desempenho

de Lula nos estados – 1o turno

Menos de 10%

RS 6,5

PR 7,8

AL 7,9

MT 9,7

MS 8,5

RR 9,7

TO 8,7

10% a 20%

SP 16,8

RJ 11,8

AC 16,4

CE 11,4

GO 15,7

MA 17,4

PA 18,2

SC 10,1

SE 16,0

BRASIL 16,1

Acima de 20%

MG 21,3

BA 22,3

AP 22,9

AM 20,0

DF 28,2

ES 20,8

PB 21,4

PE 20,6

PI 20,4

RN 21,4

Quadro do desempenho

de Lula nas capitais – 1o turno

Menos de 10%

P. Alegre 6,4

Curitiba 9,9

B. Vista 9,8

10% a 20%

São Paulo 15,2

Rio 11,9

R. Branco 18,5

Maceió 10,5

Fortaleza 14,3

Vitória 19,9

Cuiabá 15,4

C. Grande 11,0

P. Velho 13,2

Florianópolis 11,7

Miracema 10,9

20 a 30%

Macapá 25,4

Manaus 20,8

Goiânia 23,4

São Luís 23,0

Belém 25,1

J. Pessoa 26,9

Natal 29,0

Aracaju 24,6

Acima de 30%

B.Horizonte 30,6

Salvador 39,3

Recife 38,1

Teresina 32,8

102

QUASE LÁ

A votação dos setores organizados da sociedade

em Lula foi bastante representativa da inserção do

PT e demais partidos da Frente, mas a votação dos

setores de baixa renda, sem instrução e desorganizados,

assim como de diversos segmentos da classe

média, em particular do interior, foi muito abaixo

do esperado ou desejado. Não é verdade, porém, que

esses setores tenham votado em Collor e nos outros

candidatos conservadores, como esperava a maioria

dos analistas políticos.

Esses setores devem constituir 70% do eleitorado

brasileiro de 82 milhões de votantes. Ou seja,

aproximadamente 56 milhões, número levemente

inferior ao da soma dos 33 milhões de eleitores semianalfabetos

com os 30 milhões de votantes que cursaram

o primeiro grau. Collor teve realmente a expectativa

de conquistar o apoio completo desses setores

ainda no primeiro turno e evitar a segunda

rodada. Chegou a expressar esse sonho quando alcançou

45% das intenções de voto, em junho. Mas,

no final, teve menos de 21 milhões de votos, o equivalente

a 28,5% dos votantes. Os candidatos conservadores

(Collor, Maluf, Afif, Ulysses etcétera) conseguiram,

no primeiro turno, cerca de 50% dos votos,

ficando praticamente empatados com os candidatos

de esquerda, o que significa que pelo menos

20% daqueles setores despolitizados despertaram

para os problemas da política.

4. Mídia, uma nave do Império

Para conquistar sua classificação para o segundo

103

QUASE LÁ

turno, Lula teve que enfrentar máquinas poderosas.

Mas, como se viu, elas estavam divididas e foi possível

batê-las, apesar dos recursos e meios materiais

que possuíam. Contaram com o apoio de meios de

comunicação, chefes políticos e parcelas consideráveis

da máquina governamental. Empresários investiram

em um ou mais candidatos, fornecendo-lhes

recursos financeiros e materiais e apostando nos

privilégios do futuro. Collor, em especial, contou com

uma sólida sustentação financeira, permitindo-lhe a

montagem de uma máquina eleitoral completamente

profissionalizada, empresarial.

Seu próprio comitê, para atender às exigências

legais, previra um gasto de 100 milhões de cruzados

novos durante a campanha no primeiro turno. Entretanto,

é certo que apenas as pesquisas nacionais

de opinião que o Vox Populi realizou devem ter custado

bem mais do que isso, segundo sabe qualquer

pessoa enfronhada no assunto.

Para cobrir o interior do modo que programou,

visitando 10 a 12 cidades por dia, com equipes precursoras,

diversos conjuntos musicais, número correspondente

de palanques e aparelhagens de som e

iluminação, corpo de segurança e frota de jatinhos

e helicópteros, a campanha collorida gastou uma fábula

nunca inferior a US$ 100 milhões de dólares.

Sua infra-estrutura de comitês e seu sofisticado sistema

computadorizado de coleta e análise de informações,

sua agência de edição e produção de notícias

para jornais, rádios e tevês, além do disque-Collor,

representaram um custo adicional que não se compara

ao de qualquer outro candidato.

104

QUASE LÁ

Collor de Mello tinha, assim, uma estrutura de

campanha incomparável. Muito mais importante,

porém, para a execução de seu marketing político e

para a disputa contra a esquerda, particularmente

contra Lula, foi o suporte escancarado da Rede Globo.

As emissoras do doutor Roberto Marinho se esmeraram

em transformar o playboy em defensor e

vingador dos descamisados e em vender a imagem

de Lula como extremista, incompetente e destruidor

da sociedade brasileira.

No entanto, a Rede Globo foi apenas a ponte visível

do papel que a mídia desempenhou nessa campanha,

não só a favor de Collor ou de algum outro

candidato conservador do Império, mas fundamentalmente

contra Lula, através de uma permanente

guerra de desgaste e destruição, tanto eletrônica

quanto impressa, de sua candidatura. Simples programas

de auditório, nas tevês e nas rádios, a exemplo

dos programas de Paulo Barbosa, Afanásio Jazadji,

Hebe Camargo e outros, transformaram-se em tribunais

eleitorais permanentes de ataque à candidatura

da Frente Brasil Popular, até mesmo ferindo a legislação

eleitoral. As rádios do interior, onde a fiscalização

era ainda mais fraca, tornaram-se instrumentos

de propaganda eleitoral contínua contra Lula.

O Império jogou o que pode na guerra da mídia.

Um vasto rol de indignidades cerca a maioria das notícias

publicadas, desde a sórdida campanha contra o

chamado grevismo e contra as prefeituras petistas –

incluindo-se aí o caso Lubeca e a exploração do desabamento

da favela Nova República –, até as manipulações

para aproveitar as dificuldades do PT na indica105

QUASE LÁ

ção do vice e, depois de escolhido Bisol, para desmoralizar

um homem público acima de tudo honesto.

Será bom relembrar como a imprensa falou em

nepotismo para qualificar a nomeação de um sobrinho

da prefeita Luiza Erundina e de outro do secretário

de Negócios Jurídicos da Prefeitura de São Paulo.

Embora aquelas nomeações sejam passíveis de

crítica, qualquer estudante de nível médio sabe que

nepotismo significa o aproveitamento generalizado

da máquina pública para empregar parentes, do que

nem de longe se tratava. Entretanto, mais importante

será comparar aquela campanha de meses e

meses com as tímidas observações sobre a nomeação

de parentes e parentes de parentes por Collor,

após sua posse na Presidência.

Compare-se, também, a atitude da mídia, primeiro

promovendo Gabeira como a melhor opção para

vice de Lula, depois explorando seu descontentamento

por ter sido preterido e, por fim, simplesmente

esquecendo o candidato do PV à Presidência. Se

Gabeira era um fato político e representava o moderno

na campanha eleitoral de 1989, por que deixou

de ser notícia, por que nada mais do que fazia

repercutiu como candidato a Presidente? Será porque

deixou de ser instrumento eficaz para a desestabilização

da candidatura Lula pela imprensa?

Evidentemente, não se pode negar que, usando

fartamente os recursos materiais com que contava,

a campanha Collor realizou para o horário gratuito

programas de televisão e rádio bem feitos. Conseguiu

até inovar às vezes, como na vinheta em que os

muros da inflação, da corrupção, da miséria, dos

106

QUASE LÁ

marajás, eram destruídos por dois aríetes que se

transformavam nos dois eles de Collor.

Mas esses programas do horário gratuito ficaram

sempre a léguas de distância da importância e

do enorme poder de influência exercido pelos meios

de comunicação do Império, na sua programação

normal de telejornais e revistas de circulação nacional.

Este aparato representou fator decisivo nessa

eleição.

Não por acaso, já em curso a batalha do segundo

turno, a revista IstoÉ Senhor pergunta no editorial

da edição de 13 de dezembro: “Que pode esperar o

candidato Lula das tevês, dos jornais, das revistas?

No máximo que uma ou outra reportagem, um ou

outro artigo, apresentem corretamente os fatos e

os comentem sem preconceito”. E talvez relembrando

o articulista Gilberto Dimenstein, da Folha de

S.Paulo, que relacionou tráfico de influência nos

países socialistas, inchamento da máquina estatal

brasileira e defesa petista do socialismo e da democracia

para chegar à absurda conclusão – transformada

em título de artigo – de que “PT estimula corrupção”,

a mesma IstoÉ Senhor tenha concluído que

inúmeros jornalistas, “servindo sempre e sempre o

poder instituído”, “estimulam a ambigüidade e a

mentira”.

107

QUASE LÁ

Armas desiguais

É fascinante ouvir-se os locutores e

comentaristas repetirem as mesmas frases

feitas, com o apoio de uma expressiva

parcela da imprensa.

Hermano Alves, IstoÉ Senhor,

28 de junho de 1989

1. Compensando as fraquezas

Lula não podia, é verdade, esperar nada dos jornais,

rádios e tevês. Do mesmo modo, seria ilusão

contar com recursos materiais suficientes ou esperar

que os empresários fossem acometidos de uma

febre de bom senso e optassem contra o maior embuste

– o tempo dirá – que este país já conheceu.

Lula contava basicamente com a militância e a simpatia

de grandes parcelas da população.

Nessas condições, realçar as qualidades da militância

engajada em sua vitória – sua garra, entusiasmo,

combatividade e determinação – e transformar

a simpatia da população em participação ativa eram

os instrumentos de que Lula podia se valer para compensar

as fraquezas de sua campanha, que não eram

poucas, e criar condições para disputar a vitória no

segundo turno. Inclusive ampliando suas alianças, o

que se fazia com muita rapidez pela base e já era

visível nas comemorações pela vitória no primeiro

turno. Militantes do PCB, PDT, PSDB, PV, PH e PMDB

108

QUASE LÁ

se juntaram nas ruas aos militantes da Frente, gritando

o já gasto mas nunca esquecido esquerda,

unida, jamais será vencida e forçando as direções

partidárias a se decidir.

Lula saltara, na primeira pesquisa de intenção de

voto após os resultados do turno preliminar, para

38% das preferências, mais do que dobrando seu índice

de votação. Só 11% o separavam do candidato

do Império e o número de indecisos poderia reverter

completamente o quadro da disputa. Mas até a

primeira semana de dezembro a situação das alianças

permanecia confusa, em parte pela ação da mídia

de difundir a impressão de que Lula, o PT e a Frente

seriam incapazes de viabilizar a união com as forças

situadas à esquerda.

Por outro lado, era verdade que o PDT e Brizola

acusavam o PT de ter boas relações com a Rede Globo

e insistiam nas denúncias contra Bisol, criando

uma situação constrangedora. Depois Brizola confirmou

seu apoio a Lula, mas negou-se a subir em

palanque onde o candidato a vice estivesse. Dava,

com isso, incentivo às especulações de que estaria

cozinhando Lula em água fria, na expectativa de que

o metalúrgico perdesse feio e deixasse de constituir

ameaça política a ele, Brizola.

O PSDB, por sua vez, levantava objeções a um suposto

poder sindical proposto no programa de governo

da Frente e também à reforma agrária, pressionando

para que o programa fosse amaciado. Os jornais

adotaram uma tática dúplice: alguns, como o

Jornal da Tarde, criticaram Lula por ser intransigente

ao se negar negociar alguns pontos radicais

109

QUASE LÁ

do programa com os partidos que se propunham

apoiá-lo; outros, como O Globo, acusaram Lula de

trair seus eleitores ao trocar seu programa de governo

pelo apoio do PDT e PSDB, acusação que foi repetida

insistentemente por Collor.

Apesar dessas dificuldades, a tendência das bases

dos diversos partidos situados à esquerda, e até mesmo

do PMDB, levou a que se concretizasse a aliança

consubstanciada no Movimento Lula Presidente. Se

não foi exatamente o palanque das diretas-já, valeuse

de uma sustentação popular nacionalmente mais

ampla.

A campanha engrossou e ganhou uma consistência

popular que nenhuma outra campanha política

apresentou no Brasil, mas não foi capaz de corrigir

com a rapidez necessária as fraquezas estruturais

de que sofria desde o início. Era praticamente impossível

superar, em 30 dias, apesar de todo o afluxo

de apoios, o que não havíamos conseguido resolver

em 10 meses.

Transformar a campanha presidencial no principal

eixo da atividade da militância petista, compreendendo

pelo menos duas centenas de milhares de

ativistas em todo o país, demandava uma série de

ajustes organizativos, das direções às bases. Aquelas

precisavam estabelecer relações adequadas entre as

novas demandas eleitorais e a continuidade das antigas

atividades partidárias no movimento social, no

parlamento e na vida interna do partido. As bases

também precisavam encaminhar sua atenção para a

ação eleitoral, sem perder de vista a criação de canais

ágeis e acessíveis de sua participação popular,

110

QUASE LÁ

maneira de manter o vínculo com a população e os

setores organizados da sociedade. Comitês populares

pró-Lula seriam as principais formas de organização

da campanha para garantir a desejada mobilização

massiva.

Enfrentamos dificuldades sérias para realizar esses

ajustes organizativos. A maioria dos dirigentes

escolhidos para o comitê nacional eleitoral estava

envolvida com atividades parlamentares e partidárias

diversas e as reuniões do comitê dificilmente davam

quórum. Para superar essa dificuldade, formamos um

comitê político mais reduzido, com sete membros,

que também não funcionou pelos mesmos motivos.

Apenas a partir de junho-julho, depois de algumas

discussões sérias com os coordenadores estaduais

da campanha e na Comissão Executiva Nacional,

ocorreu um processo em que a própria Executiva

se transformou paulatinamente na real direção

política da campanha, colocando em desuso os comitês

anteriores. Passou a tomar as decisões a respeito

das articulações para realizar as alianças, da

elaboração do programa de ação do governo, da atividade

parlamentar, da análise da estratégia dos candidatos,

do planejamento dos fatos políticos e da

correção da estratégia e das táticas da campanha.

É nesse mesmo período que membros da Executiva

e outros dirigentes partidários assumem responsabilidades

na coordenação operativa ou executiva

da campanha, preenchendo lacunas que se mantiveram

por muito tempo e superando os problemas da

direção prática da propaganda, programa de tevê e

rádio, imprensa, finanças, mobilização, agenda, pla111

QUASE LÁ

nejamento, análise das informações e fiscalização.

Desse modo, para ser franco, somente em agosto

conseguimos montar uma estrutura razoável de comando

que, ainda cheia de deficiências materiais e

humanas, foi capaz de levar a campanha a um ponto

que apenas alguns de nós imaginávamos possível.

Essa estrutura de campanha precisava combinar

eficiência com escassez de recursos, o que nem sempre

é possível. Dizendo de outro modo, precisávamos

ter uma estrutura operacional enxuta, de baixo

custo, e competente o suficiente para responder às

demandas efetivas da campanha. Ela teria que ser

formada, pois, por profissionais de gabarito, o que

seria factível apenas se tais profissionais aceitassem

trabalhar com grande dose de voluntariado, isto é,

salários abaixo do mercado, e se as demais necessidades

de recursos humanos fossem completadas,

sempre que possível, com voluntários.

Todos os setores ou departamentos de nossa estrutura

de campanha operaram desse modo, mas um

dos exemplos mais significativos da diferença de recursos

entre as estruturas das campanhas Lula e

Collor pode ser observado nos setores de informações

dos dois candidatos. É público que Collor contratou

por um alto preço os serviços profissionais

da CapSoft, uma empresa de consultoria e informática

que montou para ele uma central de computação

e um sistema programado de coleta de armazenamento

de dados que lhe permitia obter as informações

de que precisava de modo extremamente

rápido e completo.

No comitê nacional da campanha Lula também

112

QUASE LÁ

nos preocupamos em montar um setor desse tipo.

Todo mundo sabe que hoje em dia, para acompanhar

a conjuntura e suas mudanças, com o volume

de informações que flui na sociedade, é essencial realizar

um acompanhamento da imprensa (notícias,

análises, comentários), das pesquisas de opinião e

dos boatos que, da maneira mais insólita, atravessam

o tecido social. Mais do que isso, para comprovar

a veracidade das informações detectadas naquelas

diferentes fontes, é fundamental realizar pesquisas

próprias de opinião. Collor, além de contar com

o acompanhamento da CapSoft, realizou pesquisas

constantes de opinião pública através do Instituto

Vox Populi, empresa mineira de pesquisas, de propriedade

de seu amigo Marcos Coimbra Filho.

Em nosso caso, esse trabalho contou fundamentalmente

com a contribuição de voluntários, em virtude

dos altos custos envolvidos. Não tivemos condições de

montar um centro de processamento de dados adequado,

nem de fornecer aos analistas uma infra-estrutura

de trabalho permanente, indispensável para qualquer

política de contra-propaganda e pronta resposta.

Essas deficiências estruturais fizeram com que a coordenação

da campanha demorasse a responder e agir

mais rapidamente diante de alguns ataques do Império.

Causaram uma demora injustificável na análise

dos resultados do primeiro turno e nos levaram a

não adotar medidas mais eficazes no caso do seqüestro

de Abílio Diniz, no enfrentamento da linha de

ataque de Collor no último debate pela televisão e

na desmontagem do sistema de boatos e intrigas

nas duas últimas semanas da campanha.

113

QUASE LÁ

As mesmas dificuldades nos impediram de realizar

pesquisas de opinião próprias. Com muito esforço,

chegamos a realizar duas pesquisas limitadas a

algumas capitais e cidades do interior, quase totalmente

baseadas no trabalho voluntário da militância.

Aliás, foi essa militância que permitiu que chegássemos

quase lá. A militância petista, com a qual

mantivemos mais contato, deu um dos maiores exemplos

de garra, abnegação e criatividade que esse país

já conheceu. Utilizando as mais diferentes formas

de organização e mobilização, desde os blocos Lula

no Carnaval, até os festivos comícios-monstros e as

vastas festas populares em que se transformaram os

dias de votação, a militância do PT integrou-se à

militância dos demais partidos da Frente Brasil Popular

e do Movimento Lula Presidente e deu à campanha

uma dimensão que forçou todos os candidatos

a mudarem sua estratégia, mudando também a

própria conjuntura nacional.

Sem meios próprios de comunicação de massa

nem o apoio dos existentes, criamos a Rede Povo,

nossa nave eletrônica de combate, uma das grandes

responsáveis pelo êxito da linha de mobilização e

pela transparência com que pudemos demonstrar a

diferença radical entre a candidatura Lula e as demais.

Setores do partido reclamavam do discurso de

Lula, exigindo que ele resgatasse as origens do PT,

com uma campanha classista. A imprensa também

insinuou que o candidato da Frente Brasil Popular

havia mudado o discurso a partir de setembro. Na

verdade, a linha geral do discurso de Lula não mudou

durante a campanha. Ainda em maio, em plena

114

QUASE LÁ

viagem aos Estados Unidos, diante dos empresários

que compareceram ao almoço da Câmara de Comércio

Brasil-Estados Unidos, ele prometeu “suspender

imediatamente o pagamento da dívida externa” e,

logo depois, ao voltar ao Brasil, reafirmava seu apoio

às greves dos trabalhadores, sem titubear um momento

nessa postura. O que aconteceu, a partir de

setembro, é que Lula foi sintonizando melhor seu

discurso, discurso que os cinco minutos do horário

gratuito amplificaram para milhões de telespectadores

e ouvintes de rádio, dando-lhe uma visibilidade

que nossos abnegados jornalistas do setor de imprensa

não conseguiam, apesar dos esforços.

O eixo de nossos programas, como de toda a campanha,

era a clara distinção da luta entre os pobres,

representados por Lula, e os ricos, no segundo turno

representados por Collor. Essa foi a polarização

clarificada por nossa propaganda e nossa ação desde

o início da campanha, embora só tenha se tornado

evidente para milhões de brasileiros quando viram

na tevê as cenas contrastantes do carregador

do frigorífico, que jamais comia carne, e da mulher

passeando com o cachorrinho de raça, que comia

legumes e carne, de galinha e de gado, duas vezes

ao dia.

Parodiando a própria televisão, utilizando sua linguagem

nacional e uniforme, compreensível atualmente

para todas as camadas sociais, a equipe encarregada

da Rede Povo criou momentos de grande

impacto. Fez a denúncia do envolvimento do coordenador

da campanha de Collor em Goiás no caso

do arroz estragado que o candidato do PRN mostrara

115

QUASE LÁ

dias antes, a revelação da negociata do processo de

privatização da Mafersa e a descoberta de parentes

de Paulo Maluf entre os proprietários do terreno aterrado

que desmoronou e soterrou a favela Nova República.

As imagens dos comícios, num crescendo, foram

um instrumento poderoso para colocar ainda

mais gente nas ruas e fazer com que a campanha entrasse

em sua reta final num intenso ritmo de mobilização.

As vinhetas puderam mostrar a criatividade

alegre da equipe, demolindo criações do adversário.

Quem não se lembra do movimento contrário dos

aríetes, fazendo Collor “reconstruir” a miséria, a inflação,

a corrupção e os marajás; e do trem mariafumaça,

vencendo o trem collorido? Os clips, por sua

vez, difundiram a música que mais mexeu com os

corações e sentimentos de milhões de pessoas em

todo o Brasil e até em outros países latinos.

Nós podemos e devemos ser duros na crítica aos

nossos erros e descaminhos durante a campanha,

mas é verdade também que transformamos muitas

de nossas fraquezas em força e demos às hostes do

Império uma lição de competência e combatividade

que elas não conheciam. E que, sem dúvida, não vão

esquecer.

2. Um episódio de audácia

Nem sempre é possível detectar os motivos que

levam ao conformismo com a nossa própria fraqueza

ou às descrenças em nossas forças. Às vezes, um

empresário descrê das possibilidades eleitorais do

PT ou da potencialidade de luta de seus militantes

116

QUASE LÁ

simplesmente por ignorância. Seus interesses de

classe embotam seu raciocínio. Como ele não acredita

na inteligência, operosidade e capacidade de trabalho

de seus operários, como os considera preguiçosos

e fracos para enfrentar a vida e disputar a dura

concorrência capitalista, transfere essa mesma descrença

para o Partido dos Trabalhadores quando começa

a raciocinar em torno de suas propostas e ações.

Outras vezes, um escriba que disserta sobre as

incapacidades do PT e de Lula o faz não por ignorância,

mas conscientemente. Sabe dos fatos, mas

procura espraiar a desconfiança, fazê-la penetrar

fundo no coração e na mente dos desfavorecidos e

levá-los a uma escolha contrária a seus próprios interesses

de classe. Quando Paulo Francis escreve de

Noviorque, dizendo que antes admirava Lula porque

era um líder sindical autêntico, que enfrentava as

fúrias da ditadura no ABC, pedindo melhores salários

e condições de trabalho, e não o habitual pelego

trabalhista ou comunista, mas que agora não o admira

mais porque um dia foi ao Morumbi e aprendeu

a retórica vazia e tautológica de seus amigos,

parecendo perdido para a classe operária, ele certamente

está defendendo seus interesses (dele,

Francis) com bastante lucidez. Ao demonstrar uma

falsa admiração original por Lula, procura protegerse

com um cacife moral, para que os leitores confiem

na suposta honestidade de sua afirmação atual.

Essas são descrenças e desconfianças do lado de

lá, tanto em relação ao nosso caráter quanto a nossas

fraquezas. Em geral nós as desprezamos e lutamos

contra elas com as armas com que costuma117

QUASE LÁ

mos enfrentar os inimigos. Às vezes, até mandandoos

à putaqueospariu. Mas há outras desconfianças e

descrenças, como a crença em nossa força reduzida

e em nossas potencialidades limitadas ou a descrença

em nossa vontade de vencer. É verdade que muitas

dessas descrenças são o contraponto da superestimação

de nossa força, de nossa potencialidade e

da idéia de que basta ter vontade para vencer que a

vitória virá. Por isso mesmo, decidir pelo avanço é

sempre um ato de audácia política.

A decisão de publicar os fascículos Brasil Urgente,

com os argumentos principais do programa de governo

de Lula, navegou nesse fio de navalha entre a audácia

e a aventura. A proposta surgiu de César Benjamin

após o seminário de abril de 1989 com os intelectuais.

Todos os que tiveram acesso ao projeto acharam-

no muito bom. Ele previa tiragens quinzenais, a

partir de junho, com venda em banca de 100 mil exemplares

de cada fascículo. Além de bom, audacioso.

Havia, porém, um problema. Ou melhor, dois. A

elaboração do programa de ação de governo andava

a um ritmo naturalmente lento, pelas dificuldades

em profissionalizar mais gente para trabalhar nele,

ou pelos demorados debates e ajuste que sofria nas

equipes partidárias e da Frente. Democracia faz bem,

mas dá trabalho. Afora isso, inexistiam recursos financeiros

para tocar um empreendimento editorial

de tal porte.

Apenas em agosto ficou pronto o copião do programa

de governo. E dinheiro que era bom, nada.

Alguns achavam que a edição dos fascículos seria

um importante instrumento de difusão de nossas

118

QUASE LÁ

propostas para camadas mais amplas da população,

desde que fosse bem feita e atraente. Outros também

concordavam com isso, mas achavam que era

preferível utilizar os parcos recursos da campanha

em coisas mais imediatas e necessárias. Uns opinavam

que não tínhamos condições de vender mais de

5 mil exemplares por fascículo, enquanto outros

apostavam em nossa capacidade de vender 50 mil.

Havia aqueles que temiam que nos empenhássemos

num empreendimento de alto risco. No outro extremo,

tínhamos os que apostavam na possibilidade de

obter um empréstimo para realizar o projeto e pagálo

com o próprio retorno das vendas.

Foi um parto complicado. Meio na base da pressão

venceu a última hipótese. Carlos Eduardo de

Carvalho, César Benjamin, Gilberto Carvalho, Paulo

Vanuchi e outros companheiros dedicaram-se fulltime

a conseguir financiamento, editar os textos, imprimir

e distribuir os fascículos. No final das contas,

foram vendidos 265 mil exemplares e pagas todas as

despesas. O saldo político foi difícil de quantificar.

Bem que teve gente que não gostou de certas abordagens,

mas isso ficou por conta da vida e da liberdade

de errar.

Acima de tudo, valeu a audácia contra a descrença.

3. Atrasados para a nova rodada

A luta era desigual em tudo. Até mesmo os resultados

do primeiro turno consagraram uma demora

duplamente angustiante, tanto pela disputa com

Brizola, quanto pela espera dos resultados. Enquanto

119

QUASE LÁ

Collor já estava em campanha para o segundo turno

desde o dia 16 de novembro, a coordenação da campanha

Lula procurava convencer os demais membros

do comitê político de que as projeções da equipe

de estatística estavam corretas e indicavam nossa

vitória. Foram cinco dias de expectativa, antes

que tomássemos decisões para recolocar a máquina

em funcionamento para a nova rodada.

Mas não foi apenas aí que entramos atrasados.

Como não acreditávamos realmente na possibilidade

de vencer, embora a nossa estratégia fosse construída

no sentido de colocar Lula no segundo turno,

cometemos o erro de não delinear, como deve fazer

qualquer estado-maior que se preze, os cenários prováveis

da disputa do segundo turno, especialmente

aquele que teria Collor como adversário. Tivemos

que correr atrás do prejuízo e traçar rapidamente

uma linha estratégica de combate, ao mesmo tempo

em que éramos obrigados a jogar os principais

dirigentes da campanha na costura de alianças necessárias

para enfrentar o novo quadro.

Com a polarização criada, que acertadamente esperávamos

que acontecesse, era fundamental isolar

Collor de possíveis alianças na faixa da centro-esquerda

e também do centro, mostrar a verdadeira

natureza direitista de sua candidatura e criar um

cenário de crescimento da candidatura Lula. São

conhecidas as dificuldades que enfrentamos e o tempo

precioso que perdemos até consolidar a candidatura

Lula entre as forças progressistas e populares.

Finalmente, fizemos surgir um amplo Movimento

Lula Presidente, que desbordou os limites da Frente

120

QUASE LÁ

Brasil Popular e abriu espaço para a participação da

militância do PDT, da parcela progressista da militância

do PSDB e PMDB e dos demais partidos de

esquerda.

O PCB desde logo havia se integrado à campanha,

assim como o PV. Com o PDT as coisas se arrastaram

pelo menos até o primeiro debate, no dia 3 de

dezembro. No PSDB, Montoro, Richa e Tasso

Jeiressati trabalhavam contra a aliança de seu partido

com a Frente Brasil Popular, espalhando boatos

sobre a decisão do PT de abrir seu programa para

mudanças em troca da aliança e de oferecer cargos

no governo a seus possíveis aliados e impedindo Covas

de jogar seu peso no Movimento Lula Presidente

até quase o comício do dia 12 de dezembro, em São

Paulo. Dentro do próprio PT ocorriam vetos de direções

regionais a certos apoios recebidos por Lula,

forçando a direção nacional a realizar gestões para

superar alguns obstáculos ou, até mesmo, em vários

casos, para associar-se a resistências legítimas contra

adesões nem sempre desejáveis.

De qualquer modo, no curto espaço de 15 dias

aconteceram coisas inesperadas para a maioria dos

comentaristas políticos. O afluxo de militantes

brizolistas, tucanos, do PCB, PV e mesmo de gente

que votara em Ulysses e Aureliano aos comitês do

PT e da Frente Brasil Popular era crescente, em busca

de material e de incorporação à campanha de

Lula. E chegou a tal ponto que diversos dirigentes

chegaram a aventar a idéia de que deveríamos abandonar

os esforços para trazer Brizola e Covas a uma

aliança com Lula, pois o que verdadeiramente iria

121

QUASE LÁ

decidir as eleições era a imensa unidade pela base

que estava se formando naturalmente.

Felizmente soubemos nos livrar a tempo dessa

miragem, já que a tendência de apoio das bases progressistas

do PDT, PSDB e PMDB só se consolidaria

com o apoio explícito da direção daqueles partidos,

em particular de suas lideranças mais expressivas.

Por outro lado, sem essa aliança formal dificilmente

conseguiríamos sinalizar para a grande massa de

indecisos que Lula era realmente o candidato dos

pobres, dos progressistas, das mudanças, o candidato

da grande união capaz de tirar o Brasil da crise

sem sacrificar tanto o povo.

Apesar de tudo, a pesquisa da Toledo&Associados,

feita entre os dias 24 e 27 de novembro e publicada

em 6 de dezembro, indicava que Collor estava com

47,5% das preferências nas respostas estimuladas

por cartão, enquanto Lula contava com 37,7%. A diferença

era de 9,8%. Lula mostrava-se forte nas grandes

cidades (48,3% contra 38,1% de Collor), entre

os jovens de 16-17 anos (56,7% contra 32,9%), na

faixa etária de 18 a 29 anos (49% e 38,5%) e levemente

na frente nos setores de maior instrução (1%

a 2% mais). Mas Collor continuava com força nas

pequenas cidades (51,2% contra 39,8% de Lula),

entre os mais velhos (mais de 50% contra menos de

30%) e nos setores com menor instrução (51,8% a

33,9%).

Entretanto, na pesquisa realizada 15 dias depois,

aconteceu uma inversão muito grande na situação.

Lula subiu 6,5 pontos nas respostas estimuladas por

cartão, chegando a 44,2%, enquanto Collor caíra

122

QUASE LÁ

2,5%, descendo para 44,7%. O empate era real, não

somente técnico. Nossa estratégia de ampliar as alianças,

apresentar a equipe de governo para demonstrar

a governabilidade de Lula no poder e criar fatos

políticos, desmascarando a verdadeira natureza da

candidatura Collor, mostrava-se acertada. Os ajustes

táticos que tínhamos conseguido realizar, mantendo

o formato básico dos programas da Rede Povo,

fixando nossa linha de ataque nos compromissos

políticos de Collor, direcionando nossa atenção fundamentalmente

para o público despolitizado e mantendo

a linha de mobilização massiva – mas combinando-

a com uma campanha de visitas domiciliares

– permitiram que vencêssemos o primeiro debate,

mantivéssemos Collor isolado e criássemos o cenário

real de crescimento de Lula. A reorganização do

setor de imprensa, do setor de apoio jurídico e da

equipe de mobilização, para não deixar nenhum ataque

sem resposta e manter os estados e municípios

sob pressão, em especial para atuar junto aos setores

despolitizados da população, complementavam

os ajustes políticos no mesmo sentido.

É fato que, mesmo então, não chegamos a criar

uma tendência irreversível de queda da candidatura

Collor. Mas realmente sério foi não termos sido capazes

de avaliar com rapidez a retomada de sua estratégia

de confronto, num patamar ainda mais violento

e sem escrúpulos, sinalizado pelo próprio Collor,

em IstoÉ Senhor de 29 de novembro, como uma

das alternativas de sua ação.

123

QUASE LÁ

O Brasil já não é o mesmo

Já o candidato Collor leva de saída,

mesmo que não a queira, a vantagem do

medo: o medo que o sapo barbudo

provoca, pânicos às vezes, no inferno

das coortes miseráveis e no paraíso da

dominação da ciranda financeira.

Editorial, IstoÉ Senhor,

13 de dezembro de 1989

1. O Império joga sujo

Além da desproporção estrutural, Lula tinha a desvantagem

do medo, a desvantagem de opor consciência

e dignidade a qualquer ausência de ética e à mentira.

Às vezes, é preciso tempo e muita cabeçada

para que as pessoas possam distinguir uma coisa de

outra. Que o diga quem levou calote e perdeu o

emprego com a recessão embutida no plano collorido

de estabilização.

É verdade que Collor, embora tenha insinuado na

entrevista a IstoÉ Senhor o tipo de campanha que

deveria marcar o segundo turno, procurou inicialmente

apresentar uma linha de ação que destacasse

a imagem do candidato vitorioso de 20 milhões de

votos. Considerando-se praticamente eleito, esforçava-

se para aparecer como o estadista grave e tranqüilo,

vestido condignamente e capaz de perdoar os

adversários pelo bem do Brasil. Ao mesmo tempo

em que acusava Lula de estar traindo seus eleitores,

por supostamente trocar o programa de governo da

124

QUASE LÁ

Frente Brasil Popular pelo apoio do PDT e PSDB,

reafirmava sua disposição de não negociar o programa

do PRN, de cunho social-democrata, segundo ele,

e procurava atrair o PSDB e setores progressistas do

PMDB. Sem esquecer, é claro, de amarrar o suporte

camuflado das elites que não o haviam apoiado no

primeiro turno.

Mas foi um curto período civilizado, porque ocorreu

o mesmo fenômeno do primeiro turno, quando

Collor pretendeu trabalhar principalmente com o

que chamava de seu programa de governo. A facilidade

com que fazia promessas irrealizáveis, mesmo

que com uma aparência técnica confiável, soava falsamente

e atrapalhava seu crescimento. Para piorar,

adesões públicas de antigos políticos acusados, mais

uma vez, de praticarem corrupção, como Antonio

Carlos Magalhães e Roberto Cardoso Alves, ministros

de Sarney, colocavam em perigo sua base de

sustentação popular e estagnavam ou faziam cair as

intenções de voto em sua candidatura.

Tudo isso, comparado ao crescimento de Lula, fez

com que o desespero penetrasse fundo nas hostes

do Império. O comando oficial da campanha collorida

entrou em crise, na prática sendo substituído pelo

estado-maior secreto da Candelária, onde antes só

se tomavam as grandes decisões e aquelas relacionadas

com a guerra suja.

Os grandes empresários de São Paulo, por sua vez,

já haviam avisado que o único candidato que não

queriam ver no Planalto era Lula. Mas, com o empate

detectado nas preferências eleitorais, tornava-se

evidente que o candidato do Império não consegui125

QUASE LÁ

ria vencer se a partida fosse jogada limpamente. Era

preciso jogar duro e sujo. Tirar o time light, socialdemocrata

ou de centro-esquerda, que estava no

comando visível da candidatura Collor e colocar em

seu lugar a turma da pesada, dark, direitista e completamente

desprovida de escrúpulos. Aliás, o estado-

maior imperial da campanha Collor não precisou

ir muito longe: bastou dar uma olhada na própria

família do candidato para notar que o irmão Leopoldo

estava talhado para chefiar a operação de desmonte

da candidatura Lula.

A linha principal de combate da candidatura Collor

retomava com força o elemento mentira, a mentira

repetida à exaustão, para ser aceita como verdade

pelo amortecimento dos sentidos. A mentira associada

à exploração dos temores da população carente,

desinformada e despolitizada, numa escala jamais

experimentada na história brasileira. As mentiras e

os medos, as intrigas e os boatos, as provocações e o

cinismo, tudo profissionalmente articulado, para

associar Lula a imaturidade, calote, baderna, comunismo,

luta armada, derramamento de sangue, roubo

de propriedade, fim da religião, violência.

Jamais os meios de comunicação de massa se integraram

de forma tão íntima para difundir as mesmas

calúnias, as mesmas mentiras, os mesmos boatos, as

mesmas intrigas. Adotaram fielmente o briefing ditado

pelo próprio Collor no Programa Ferreira Neto de

11 de dezembro, na TV Record, com retransmissão

em cadeia nacional pelas emissoras que quisessem,

aprofundando seu discurso em Vitória, no dia 8, onde

já apresentara o tom de sua nova estratégia.

126

QUASE LÁ

O Departamento Nacional de Telecomunicações

(Dentel) já havia feito um levantamento da programação

jornalística da Rede Globo entre 27 de novembro

e 6 de dezembro, constatando que o candidato

Collor ocupara 64,1% do tempo da cobertura

eleitoral da emissora, contra apenas 35,9% para Lula.

Num único programa sobre eleições, Collor teve 22

minutos e Lula nada. O resto da imprensa seguiu o

exemplo, mesmo aquela que se dizia neutra. Contam-

se nos dedos as exceções. Manchetes, títulos,

subtítulos e conteúdo das matérias se repetiam no

Sudeste, no Sul, na Amazônia e no Nordeste, numa

integração impecável.

Quem quer que hoje se dê ao trabalho de pesquisas

a imprensa na época vai encontrá-la em qualquer

canto do país, dizendo que Lula era lobo em

pele de cordeiro, que uma professora foi convidada

por guerrilheiro a participar de atentado contra

Collor, que o crescimento de Lula tinha feito o dólar

e os juros subirem, que a vitória de Lula significaria

o caos, que a reforma urbana do programa da

Frente Brasil significaria a ocupação de quartos dos

que tivessem mais de um, a tomada de um carro dos

que tivessem dois e que a reforma financeira do PT

seria o fim da caderneta de poupança, pelo calote

da dívida. Isso para citar alguns exemplos menores.

Uma sórdida mentira utilizada por Collor contra

Lula no Programa Ferreira Neto foi repetida no debate

do dia 14 de dezembro: a acusação de que um

dos principais dirigentes petistas tinha pensamento

nazista e chamara os nordestinos de sub-raça. Claus

Germer, o dirigente acusado, é, no entanto, um re127

QUASE LÁ

conhecido lutador pela democracia e um firme defensor

dos trabalhadores rurais do Paraná. Ao contrário

de Collor, que não tem como esconder sua

condição de filhote da ditadura, Claus esteve entre

os combatentes que resistiram ao regime militar.

De renomada competência profissional, ocupou o

cargo de secretário de Agricultura do Paraná no governo

Richa (PMDB), tendo suscitado o ódios dos

latifundiários e políticos conservadores por sua ação

prática a favor da reforma agrária.

Aproveitando-se de uma palestra em que Claus

denunciara a política agrícola do governo Sarney e

chamava atenção para seus efeitos desastrosos – principalmente

no Nordeste, onde a fome e a miséria

intensas condenavam os lavradores a correr o perigo

de tornar-se uma sub-raça –, juntaram-se todos

aqueles que queriam vê-lo longe da Secretaria de

Agricultura, para uma campanha em que as palavras

de Claus eram deturpadas e ele acusado pelo

que nunca dissera.

Ao demonstrar toda a sua indignação com o descaso

do governo em relação aos trabalhadores nordestinos,

o ex-secretário somente repetira com suas

próprias palavras a tese de Josué de Castro, em sua

“Geografia da Fome”, na qual acusava as elites de

estarem transformando a população nordestina num

povo raquítico, de alta mortalidade, através da fome

como estado permanente de vida.

Na verdade, tudo aquilo que, antes, fazia parte

apenas do receituário de boatos difundidos pelo comando

central localizado na Candelária, ganhou dimensão

nova com o discurso de Collor em Vitória e

128

QUASE LÁ

com sua entrevista no Ferreira Neto. As mentiras e

intrigas saíram dos esgotos do Império e os jornais,

rádios e tevês passaram a retransmiti-las com o aval

de seu candidato, revestindo-as de uma credibilidade

que não tinham. E governadores, prefeitos, vereadores

e empresários, coordenando as redes de intriga

nos estados, juntaram-se à guerra suja e transformaram

os comícios colloridos em palanques que cada

vez mais lembravam os da antiga Arena.

Deixaram a sombra e arregaçaram as mangas, na

Bahia, o governador Nilo Coelho e os senadores Jutahy

Magalhães, Rui Bacelar e Luís Viana, além do já citado

Antonio Carlos Magalhães; no Rio Grande do Sul,

Nelson Marchesan; em Pernambuco, Marco Maciel;

em Santa Catarina, Jorge Bornhausen; no Pará, Jarbas

Passarinho; em São Paulo, Paulo Maluf. Todos saídos

da Arena, suporte do regime militar, para o PDS, alguns

em trânsito para o PFL e PMDB.

Brigadas de mercenários, muitos dos quais vestindo

camisetas do PT, percorriam favelas e bairros

pobres ameaçando as pessoas com os boatos então

amplamente difundidos por Collor e pela imprensa.

Pastores protestantes e padres conservadores bradavam

aos céus contra a suposta intenção de Lula

de fechar as igrejas e proibir os cultos religiosos.

Empresários ameaçaram seus empregados de demissão

caso Lula vencesse. Em contrapartida, prometeram

um 14o salário caso perdesse. No Ceará foram

distribuídos panfletos representando Lula como um

monstro, o que na mente esclerosada dos reacionários

só pode ser relacionado a comunismo e marxismo.

Em Brasília distribuíram um panfleto, citado

129

QUASE LÁ

várias vezes por Collor, com as assinaturas de uma

falsa juventude petista, pregando a luta armada.

Entre os dias 11 e 15 de dezembro a ofensiva das

hostes reunidas do Império foi total. Novos incidentes

como o de Caxias, no Rio Grande do Sul, preparados

pelos destacamentos de provocadores da campanha

Collor, foram descobertos pela coordenação

nacional da campanha Lula e precisaram ser evitados

com redobrados esforços pelas coordenações

estaduais e locais. No dia 11, o dólar explode mais

uma vez e a coordenação nacional recebe a informação

do seqüestro do empresário Abílio Diniz. No dia

12, no programa noturno do PRN, a falsa enfermeira

Miriam Cordeiro aparece no vídeo repetindo acusações

que fizera em maio contra Lula e acrescentando

outras, ainda mais absurdas, de racista e corruptor,

esta por supostamente haver oferecido dinheiro

para que ela abortasse a filha.

Ainda no dia 12, com a ajuda de policiais, o PRN

consegue montar uma armadilha para Juarez Soares,

secretário de Esportes da Prefeitura de São Paulo,

acusando-o de manter sociedade numa arapuca

de videopôquer.

No dia 14, ocorre o segundo e último debate entre

Lula e Collor. Este foi, sem dúvida, o exemplo

mais cristalizado do uso da mentira, da intriga e do

cinismo como instrumento de mistificação das massas.

Collor mentiu o tempo todo, sem corar ou titubear

diante de qualquer consideração ética. Repetiu

praticamente todos os argumentos que apresentara

no Programa Ferreira Neto, acusando Lula de

projetar o calote nas dívidas internas e externa, a

130

QUASE LÁ

expropriação da terra agricultável, a luta armada e a

revolução sangrenta, a mudança da política salarial

para prejudicar os trabalhadores, e por aí afora. Fingindo

não saber que vive cometendo barbaridades

contra a língua portuguesa, apontou os erros gramaticais

de Lula e afirmou, vejam só, que ao contrário

do candidato da Frente, não podia dar-se sequer

ao luxo de comprar um aparelho de som!

No dia 15, a Rede Globo e outras emissoras passaram

a divulgar uma pesquisa do Instituto Vox Populi

sobre quem supostamente vencera o debate e sobre

quem apresentara “as melhores propostas”. O instituto

contratado por Collor, com base em pesquisas

telefônicas restritas, bateu insistentemente na tecla

da vitória de seu cliente. Collor dava a vitória a

Collor! Era muito despudor de uma só vez.

Mas não ficou por aí. No mesmo dia 15, o Jornal

Nacional, da TV Globo, apresentou uma edição do

debate da véspera entre os presidenciáveis, na prática

mostrando apenas os piores momentos de Lula e

selecionando a dedo as melhores intervenções de

Collor. Mais tarde, no dia 18, os dirigentes dos principais

institutos de pesquisa apontaram que aquela

edição influiu mais no ânimo dos eleitores do que o

próprio debate. E o vice-presidente de operações da

TV Globo, José Bonifácio Sobrinho, o Boni, reconheceu

que a edição foi mais favorável a Collor por

um erro de avaliação do departamento de jornalismo

da emissora, segundo ele, ao apontar com uma

pitada de exagero a vantagem de Collor.

O mea-culpa de Boni levou o poderoso chefão

Roberto Marinho a fazer a observação sarcástica de

131

QUASE LÁ

que seu principal executivo era muito bom de tevê,

mas nada entendia de política. Hoje, após os desentendimentos

que levaram à destituição de Armando

Nogueira e Alice Maria da direção do jornalismo da

Rede Globo e sua substituição por Alberico de Souza

Cruz, sabemos toda a história daquela manipulação

como arma decisiva da guerra suja que o Império

lançou para derrotar Lula.

2. As reservas estratégicas

Muitas pessoas, dentro e fora do PT, consideram

que o último debate foi decisivo para a derrota de

Lula na votação do dia 17 de dezembro. Mauricio

Thomaz, um petista de Muzambinho, Minas Gerais,

escreveu para a coordenação da campanha uma carta

que é a síntese do pensamento médio da militância:

“Lula teria ganho o debate se discutisse a calúnia de

Collor a propósito da filha. Não discutindo a questão

a insinuação caluniosa de Collor transformou-se em

denúncia para muitos eleitores, certamente. Collor

deu uma arma para Lula e ele não usou. Foi um grande

erro, embora compreensível e desculpável”.

Na mesma linha de raciocínio vai o companheiro

Álvaro Cerqueira, do diretório municipal do PT de

Muriaé, Minas Gerais: “É importante que vocês levem

em conta, pela nossa avaliação, que o último debate

causou enormes estragos no ânimo da militância

petista, deu sobrevida aos colloridos e tirou-nos a vitória...

Duas horas e meia foram suficientes para fazer

desmoronar anos e anos de luta árdua... Nós ficamos

aqui nos perguntando o que teria acontecido”.

132

QUASE LÁ

O que teria acontecido? Aqui também variam as

explicações. A mais corriqueira é responsabilizar o

coordenador da agenda, Cezar Alvarez, por ter permitido

uma sobrecarga de atividades nos dias que

antecederam ao debate, deixando Lula cansado demais

e não abrindo espaço para uma melhor preparação.

O próprio Lula já se referiu mais de uma vez

ao fato e não há dúvidas de que esse foi um erro, de

responsabilidade não apenas do Cezar Alvarez, mas

de toda a coordenação e inclusive daqueles que faziam

pressão permanente para que Lula cobrisse uma

ou outra programação que consideravam politicamente

importante.

Mas isso não vem tanto ao caso. O que importa

saber é se esse foi mesmo o erro decisivo. Na verdade,

se compararmos o primeiro e o segundo debates

entre Lula e Collor poderemos chegar à conclusão

de que a diferença entre ambos existiu, mas não foi

tão grande. Até podemos reclamar de Lula não ter

cobrado o desafio sobre as prefeituras feito no debate

anterior, não ter aproveitado, com a vivacidade

que o caracteriza, o lance do aparelho de som nem

ter desmascarado outras mentiras escrachadas, para

mostrar a verdadeira face de Collor ante os telespectadores.

O cansaço físico realmente parecia estar

entorpecendo a rapidez de seu raciocínio. Mas a

rigor, Collor não sobrepujou Lula de modo decisivo.

Então, por que esse segundo debate foi tão demolidor

contra nós quanto o primeiro foi para Collor?

Por vários motivos. Primeiro, porque a coordenação

da campanha cometeu, aqui sim, um erro estratégico

ao propor somente dois debates e, pior, ao

133

QUASE LÁ

aceitar que o último fosse no dia 14 de dezembro,

coincidindo com o programa final do horário gratuito.

Num pavoroso “cochilo de classe”, nós simplesmente

esquecemos de que o horário gratuito acabava

para nós, que não tínhamos meios de comunicação

de massa, mas continuava para Collor. Ele tinha

praticamente todos, mas bastaria a Rede Globo.

Depois, nós permitimos que se criasse uma expectativa

exagerada no desempenho de Lula no debate,

na suposição de que ele iria esmagar seu oponente.

O próprio Lula alimentou essa expectativa,

em constantes entrevistas e discursos. No último

comício de Salvador, por exemplo, ele prometeu bater

no adversário até desmascará-lo inteiramente

diante de 82 milhões de eleitores brasileiros. Essa

expectativa, ela sim, foi fatal para a militância. O

debate tomou a proporção de um naufrágio, fazendo

com que essa militância perdesse o ímpeto de

mobilização que tinha imprimido à campanha nos

dias anteriores. Durante todo o dia 15, antes portanto

da manipulação da Globo pelo Jornal Nacional,

a coordenação dedicou-se quase exclusivamente

a levantar o astral dos comitês estaduais e municipais

e injetar novo ânimo nos militantes. Não é

preciso ser estrategista militar para saber a influência

que a perda de ânimo pode ter sobre uma tropa

em ofensiva.

Mas além disso é preciso reconhecer que a estratégia

adotada para o debate também foi errada. Nós

sabíamos que Collor bateria duro. Tínhamos informações

de que, se Lula conseguisse jogá-lo contra

as cordas e ele sentisse o perigo de ser nocauteado,

134

QUASE LÁ

iria para ações desesperadas de modo que os dois

naufragassem juntos. Já tínhamos lido o discurso

de Collor em Vitória e assistido à sua entrevista na

TV Redord. Mesmo assim decidimos pela chamada

linha das Alagoas, concentrando nossos ataques nas

mazelas de sua administração em Maceió e no estado.

Esquecemos que, por mais falcatruas que ele

tenha cometido por lá, para o restante dos brasileiros

isso não dizia muito e as acusações eram colocadas

em dúvida quando ele mostrava a votação que

conquistara no primeiro turno.

A manipulação do debate pela Rede Globo, porém,

evidenciara que o Império possuía reservas estratégicas

de vulto para jogar contra nós, enquanto

tínhamos praticamente jogado tudo na batalha final.

Nosso amplificador, a Rede Povo, saíra do ar;

não tínhamos nem mesmo um jornal de penetração

nacional; estávamos raspando o tacho em termos de

recursos financeiros; e os que antes pareciam neutros

diante do embate, como alguns jornais, tomaram

partido pelo lado de lá.

É estranho, por exemplo, como o Tribunal Superior

Eleitoral negou nosso direito de resposta à manipulação

da Rede Globo, embora no caso Ferreira

Neto tenha concedido, o que permitiu a Plínio de

Arruda Sampaio demolir uma a uma as acusações

mentirosas feitas por Collor. Embora a Globo tenha

incorrido em evidente crime eleitoral, nosso pedido

de resposta passou de juiz a juiz durante todo o dia

16 para, avançada a noite, ser negado. Aí já era tarde

demais.

Também não tínhamos meios para enfrentar efi135

QUASE LÁ

cazmente as brigadas mercenárias, contratadas por

um bom dinheiro, responsáveis pela montagem de

provocações e incidentes do tipo de Caxias do Sul e

pela difusão de boatos e intrigas entre a população

mais pobre e despolitizada. Nossas equipes de acompanhamento

dos programas e noticiários de rádios

e tevês ficaram assoberbadas com o volume da propaganda

política veiculada em toda parte a favor de

Collor, já depois do fim do horário gratuito, tornando

quase impossível que o grupo de apoio jurídico

conseguisse solicitar a tempo os pedidos de resposta.

E, mesmo que isso tivesse sido possível, dificilmente

teríamos conseguido, em tempo hábil, produzir

as respostas concedidas.

O caso do seqüestro do empresário Abílio Diniz

talvez tenha sido o exemplo mais característico do

tipo de arma suja que o Império dispunha como reserva

estratégica para jogar contra a candidatura

Lula. Desde o dia seguinte ao seqüestro a coordenação

passou noites sem sono, para confirmar a informação

de que o local do cativeiro já havia sido descoberto

mas seria dado a público apenas no sábado

anterior à eleição, para responsabilizar o PT e tirar

qualquer chance de Lula vencer. Todo mundo em

São Paulo sabia do seqüestro, mas havia um acordo

com os órgãos de imprensa para não divulgá-lo, a

fim de evitar que o empresário fosse assassinado.

Nas diversas reuniões que tivemos para debater o

assunto, Paulo Delgado chegou a sugerir que não

poderíamos ir de Woodstock enquanto o inimigo vinha

de Chicago, e que deveríamos botar a boca no

trombone denunciando a trama.

136

QUASE LÁ

Mas quem publicaria a denúncia que parecia tão

fantasiosa e inverossímil? Além disso, mesmo que a

imprensa tivesse conhecimento da informação sobre

o uso do seqüestro para implicar o PT, que cheirava

a paranóia, quem garante que ela daria o mesmo

volume a essa versão, contra a versão do Império?

E se, feita a denúncia, o empresário fosse assassinado

e o PT considerado culpado por ter dado vazão

às suas suspeitas, o efeito não seria da mesma

forma avassalador?

Tudo indica que o estado-maior imperial da campanha

Collor não considerou necessário utilizar todo

o poder de fogo que a manipulação do seqüestro

permitiria. É provável que tenha considerado suficiente

a manipulação do debate para modificar as tendências

de intenção de voto e garantir a vitória.

Mesmo assim, no dia 16 a Rede Gllobo – como grafou

Herbert de Souza, o Betinho, num telegrama que

passou para a coordenação da campanha Lula – quebrou

o acordo dos meios de comunicação e noticiou

o seqüestro, com acusações implícitas ao PT.

O jornal O Rio Branco, do Acre, publicou em manchete,

no mesmo dia, “PT seqüestra Abílio Diniz”,

enquanto Saulo Ramos, então ministro da Justiça,

e Luiz Antonio Fleury, secretário de Segurança de

São Paulo, candidamente afirmavam, num momento

em que ninguém perguntava sobre isso, que o PT

não estava envolvido. Mas no dia 17 os boqueiros de

urna do PRN e dos partidos que apoiaram Collor no

segundo turno afirmavam taxativamente, em especial

em São Paulo, a cumplicidade do PT no ato criminoso.

137

QUASE LÁ

De qualquer modo, foi nesse momento, mais do

que em qualquer outro da campanha, que pudemos

nos dar conta da brutal disparidade de meios entre

as duas candidaturas. O Império tinha tudo: dinheiro,

meios de comunicação, a parte principal do aparelho

de Estado, o poder de fato para desequilibrar

a disputa a seu favor, usando para isso as armas que

fossem necessárias, por menos éticas e mais indignas

que se apresentassem. Por isso, apenas quem

não vivia a roda-viva do comando da campanha Lula

pode supor que ele se deixou intoxicar pelo triunfalismo,

pelo clima do já ganhou, o que comprometeria

toda a tática até ali desenvolvida. As informações

a que tínhamos acesso por diferentes canais não nos

permitiam viver tal clima. Ao contrário, toda vez que

detectávamos o surgimento desse triunfalismo entre

setores da Frente, sempre o colocávamos entre as

diversas dificuldades que tínhamos que desmontar.

Como afirmamos em telex a todos os comitês, “nosso

adversário e as forças que o apóiam vão tentar tudo

para evitar a vitória de Lula”. Hoje sabemos que tentaram

e que tinham ainda o que jogar, caso achassem

necessário.

3. Nem todos despertaram

A rigor, desde a Independência as elites do Império

realizam eleições para fazer funcionar um sistema

representativo que lhes permita apresentar uma

fachada de democracia. É verdade que, durante um

largo período, às eleições só podiam comparecer

aqueles que tivessem posses. Depois, à medida que

138

QUASE LÁ

as elites iam sendo obrigadas a permitir o comparecimento

do povo às urnas, criavam ao mesmo tempo

mecanismos que lhes facultavam controlar facilmente

o resultado das eleições. O voto de cabresto,

o clientelismo e os currais eleitorais, misturando

coação e aliciamento através de cabos eleitorais, são

figuras tradicionais do panorama político brasileiro.

O uso dos meios de comunicação de massa veio

acrescentar um novo ingrediente àqueles mecanismos.

Conhecedoras da extensão do analfabetismo e

da despolitização da maioria esmagadora da população

brasileira, as elites investiram na desinformação

massiva para compensar o afluxo de grandes contingentes

eleitorais, inclusive analfabetos e jovens entre

16 e 18 anos. Por esses meios o Império procurou

manter como regiões de clientelismo arraigado

e como currais eleitorais o Nordeste, o Norte, o Centro-

Oeste, as pequenas cidades do interior e as áreas

rurais.

No embate de 1989, mais uma vez as eleições foram

vencidas pelo Império, por seu príncipe sem ética

e sem dignidade. Com o apoio financeiro e material

dos grandes empresários que ficaram na sombra e

com o concurso decisivo dos meios de comunicação.

Collor construiu sua falsa imagem de caçador de marajás,

inimigo dos corruptos e dos políticos, adversário

de Sarney e salvador dos oprimidos e descamisados.

Dessa maneira, conseguiu 35 milhões de votos –

43% do eleitorado ou 51% dos votos válidos.

Foi uma vitória eleitoral inconteste, quantitativamente

irretorquível. Bem vistas as coisas, porém,

foi uma vitória que apresenta problemas para o Im139

QUASE LÁ

pério. Apesar de toda a propaganda apesar do esforço

concentrado das elites, apesar dos receios intensamente

explorados, apesar das mentiras, intrigas e

boatos, houve um considerável despertar da população.

A única vitória de que podem se vangloriar é

que nem todos despertaram.

Não há dúvida de que tais setores ainda são majoritários

na população brasileira, uma maioria silenciosa

capaz de decidir uma eleição polarizada ou de

fazer pender os resultados de um confronto social

sério. O Jornal do Brasil de 11 de dezembro dava

conta de que o SNI entregara ao presidente Sarney

o cruzamento de três pesquisas de opinião mostrando

que Collor não fora desestabilizado no interior, o

que garantia sua vitória sobre Lula com diferença

de 4 a 5 milhões de votos, isto é, 5% a 6%. Apesar de

o Jornal do Brasil não acreditar que eleição fosse o

forte do SNI, é evidente que dessa vez o general Ivan

acertou na mosca. Mais: foi justamente aí que Lula

perdeu a eleição.

Desde a fase final da campanha do primeiro turno

a coordenação da campanha Lula fizera o diagnóstico

da fraca penetração da Frente Brasil Popular e de

Lula nessas camadas e conseguira traçar com bastante

precisão o seu perfil social. Sabia que era aquela

parcela da população de baixa renda e pouca instrução

– as chamadas classes C, D e E dos institutos de

pesquisa –, composta por trabalhadores na construção

civil e no comércio, por bóias-frias, desempregados

e semi-empregados, em geral moradores nas

periferias dos centros urbanos e nas pequenas cidades

do interior.

140

QUASE LÁ

Em geral vivem na pobreza e na miséria, mas têm

medo da luta e esperam sempre que alguém resolva

os problemas por elas. Muitos pobres viam em Lula

a criação de uma situação de conflito no Brasil e,

por experiência histórica, sabiam que as conseqüências

piores dos conflitos sociais sempre acabam caindo

sobre os pobres. Por isso, preferem, no máximo,

ficar como espectadores, abominando tudo que

simbolize seu envolvimento na luta: greve, baderna,

rebeldia, luta armada – que trazem complicações

com as autoridades e a polícia.

Esses setores são, ao mesmo tempo, altamente

influenciados pelos valores de seus opostos na escala

social: endeusam a propriedade que não possuem

e envergonham-se profundamente se não podem

pagar as dívidas que contraíram. Tudo isso, apesar

de viverem no limiar da marginalidade. Desse modo,

também têm impacto muito negativo na percepção

atual desses estratos populacionais os símbolos do

comunismo, que supostamente vai pintar de vermelho

a bandeira, tomar a propriedade dos particulares

e dividir de quem tem para dar a quem não tem,

assim o do calote, de quem vai deixar de pagar o que

deve.

Lula, em grande parte, contrariava esses padrões

mentais, mesmo descontando as acusações simplesmente

caluniosas. Ele oferecia luta para quem não

queria envolvimento; oferecia um companheiro para

quem, ao contrário, queria um salvador; apresentava-

se para resolver em conjunto os problemas a quem

queria solução sem arriscar-se a participar. Nessas

condições, era até natural que Collor, explorando

141

QUASE LÁ

como explorou essas características, conseguisse

ganhar aquelas parcelas, como ganhou também os

setores da classe média, dos centros urbanos e do

interior, que enxergavam em Lula o sinal de que seu

padrão de vida seria achatado.

O que não foi natural, o que desmentiu analistas

sérios e também calhordas do tipo Paulo Francis,

que supunham que pobre não votava em pobre, foi a

mudança de mentalidade em parcelas muito importantes

dessas faixas da população. Elas conseguiram

livrar-se da influência da propaganda e da ação do

Império, rompendo com a negatividade daqueles símbolos

com que eram empulhadas, perdendo o medo

de ser feliz e assumindo as conseqüências da luta

por uma nova sociedade.

Votaram em Lula 31 milhões de brasileiros ou 38%

dos eleitores, o que corresponde a 47% dos votos

válidos, uma diferença de 5% a 6% em relação aos

votos recebidos por Collor. Um voto que resistiu a

todas as ameaças, a todas as provocações, a todas as

mentiras, chantagens, boatos e intrigas. Um voto

que veio dos grandes centros urbanos, onde estão

os setores mais organizados da sociedade, mas também

dos antigos currais eleitorais, das áreas onde

predominava o sistema clientelista. E também das

prefeituras governadas pelo PT, em 14 das quais Lula

venceu.

Venceu, em particular, nos grandes centros operários

de São Bernardo, Santo André, Diadema,

Ipatinga, João Monlevade e Timóteo, todos com prefeitos

petistas, assim como em Osasco e São José

dos Campos, com prefeitos colloridos. Venceu tam142

QUASE LÁ

bém no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e no

Distrito Federal, além de ficar praticamente empatado

em Pernambuco e em Santa Catarina. A votação

no candidato da Frente Brasil Popular no Nordeste

foi uma verdadeira revolução cultural, com

resultado superior a 40% na Bahia, Ceará, Paraíba,

Rio Grande do Norte, além de Pernambuco [ver quadro

do desempenho eleitoral de Lula no 2o turno nos

estados e capitais].

Quadro do desempenho eleitoral

de Lula nos estados – 2o turno

(Variação em relação ao 1o turno)

20% a 30%

AC 29,1 (+12,7)

PA 26,5 (+8,3)

RR 22,9 (+13,2)

AL 22,3 (+14,4)

MS 26,0 (+17,5)

TO 20,5 (+11,8)

30% a 40%

AP 34,4 (+11,9)

AM 31,9 (+11,9)

RO 35,0 (+11,9)

MA 35,2 (+17,8)

PI 38,7 (+18,3)

SE 31,4 (+15,4)

GO 30,1 (+14,4)

MT 32,1 (+22,4)

ES 38,4 (+17,6)

SP 39,4 (+22,6)

PR 30,9 (+23,1)

BRASIL 37,8 (+21,7)

Acima de 40%

BA 44,7 (+22,4)

CE 40,9 (+29,5)

PB 42,2 (+20,8)

PE 47,7 (+18,1)

RN 44,2 (+22,8)

MG 41,8 (+20,5)

SC 46,8 (+36,7)

DF 59,4 (+31,2)

RJ 69,8 (+58,0)

RS 64,6 (+58,1)

143

QUASE LÁ

Metade do eleitorado brasileiro já não tem medo

de ser feliz. Já não foge da luta e de suas conseqüências

e está disposta a caminhar unida para transformar

a sociedade brasileira. O desafio maior é continuar

derrubando os mitos e fazer com que a outra

metade desperte. Mesmo porque, só assim não haverá

superioridade material que salve o Império,

Quadro do desempenho eleitoral

de Lula nas capitais – 2o turno

20% a 30%

Boa Vista 23,4 (+13,6)

30% a 40%

Rio Branco 33,6 (+15,1)

Macapá 37,8 (+12,4)

Manaus 37,3 (+16,5)

Maceió 32,6 (+20,1)

C. Grande 33,9 (+22,9)

Acima de 40%

Belém 40,3 (+15,2)

P. Velho 40,2 (+27,0)

Aracaju 46,7 (+22,1)

Goiânia 45,2 (+21,8)

Cuiabá 46,6 (+31,2)

Miracema 43,6 (+32,7)

Vitória 45,5 (+25,6)

São Paulo 40,3 (+25,1)

Curitiba 41,0 (+31,1)

Salvador 68,4 (+29,1)

Fortaleza 58,6 (+44,3)

São Luís 53,0 (+30,0)

J. Pessoa 52,7 (+25,8)

Recife 63,3 (+25,2)

Teresina 57,1 (+24,3)

Natal 59,1 (+30,1)

B.Horizonte 64,2 (+33,6)

R.Janeiro 70,2 (+58,3)

P. Alegre 71,9 (+65,5)

Florianópolis 64,2 (+52,5)

144

QUASE LÁ

quando novo confronto pelo poder se apresentar

entre as forças conservadoras e as forças de esquerda,

democráticas, populares e progressistas.

4. Mitos derrubados

É verdade que apesar de todos os esforços, das

mobilizações massivas e do engajamento pleno da

militância, que nos momentos de pico da campanha

deve ter englobado cerca de dois milhões de pessoas

em todo o país, os resultados finais foram desfavoráveis

às forças populares e progressistas. Erros

conjunturais, apontados no decorrer deste texto,

constituíram as causas imediatas da derrota.

Entretanto, a análise dura dessas causas imediatas

não deve encobrir o fato de que, dado o equilíbrio

de forças no final do segundo turno, as reservas

estratégicas do inimigo jogaram o papel decisivo no

embate final. E que, no fundamental, foi a correta

estratégia que traçamos para a campanha que permitiu

ao PT e seus aliados superar a extrema

disparidade de meios, alcançar uma posição

impensável para qualquer analista político e derrubar

mitos há muito arraigados na tradição política

brasileira.

Vamos deixar de lado o mais tosco e grosseiro

desses mitos, o de que pobre não vota em pobre,

trabalhador não vota em trabalhador. Vamos diretamente

a outro, tão antigo e explorado pelas elites

do Império quanto aquele: o de que as esquerdas

são capazes de tudo, menos de se unir, mesmo na

cadeia. Num curto espaço de tempo, superando atri145

QUASE LÁ

tos antigos, aversões e preconceitos, as esquerdas

conseguiram unificar-se em torno de Lula, criando

um novo patamar para a luta política no Brasil. Quem

não se lembra da concorrência sempre conflitante

entre o PCdoB e o PT? O PCdoB passou boa parte

dos últimos 10 anos tentando demonstrar que o PT

era o principal inimigo dos trabalhadores, uma mistura

informe de trotskistas, social-democratas, anarquistas

e outros bichos. De parte do PT, muitos militantes

enxergavam no PCdoB um inimigo irreconciliável,

não uma corrente do movimento operário

com quem se tinha divergências, mesmo que algumas

bastante profundas.

Através do projeto da candidatura Lula, com um

programa definido de mudanças, a convivência militante

de 10 meses de campanha não conseguiu superar

as principais divergências, nem eliminar completamente

os preconceitos de lado a lado, mas introduziu

uma positiva mudança de qualidade no relacionamento.

Se em relação ao PCdoB, assim como ao PCB, havia

uma certa tradição de confronto, com o PSB isso

não existia, a não ser de forma localizada. O mesmo,

porém, não se podia dizer em relação o PDT. Brizola,

em especial, sempre bateu duro no PT, tratando-o

como uma espécie de filho desnaturado que o pai

deve tratar com rigor e até deserdar para servir de

exemplo. A campanha eleitoral trouxe à tona todas

as mágoas, ressentimentos e incompreensões do PDT.

Ele, na realidade, deu chancela de verdade a muitas

das acusações que a direita fazia ao PT, como a de

receber ajuda financeira do exterior através do movi146

QUASE LÁ

mento sindical, servir de instrumento da direita para

impedir a vitória da esquerda representada por Brizola,

e assim por diante. Várias dessas acusações, em particular

as assacadas contra Bisol, constituíram instrumentos

importantes de ataque de Collor contra

Lula no último debate pela televisão.

É evidente que também no PT persistiam resistências,

mágoas e ressentimentos em relação ao PDT.

Ainda em setembro alguns setores do partido consideravam

Brizola o alvo principal de nosso ataque.

Mesmo assim, durante toda a campanha eleitoral

perseveramos na decisão de considerar a direita

como nosso inimigo principal, evitando ataques a

Brizola. Nossa disputa com ele, tirando o excesso

praticado num ou noutro lugar, manteve-se fundamentalmente

na linha de criticá-lo por não se diferenciar

claramente da direita e dos conservadores,

com os quais chegava a estabelecer compromissos e

alianças com vistas a ganhos eleitorais.

Essa linha de ação permitiu que superássemos os

obstáculos que impediam a aliança com o PDT no

segundo turno, estabelecêssemos um relacionamento

mais estreito nessa fase da campanha, desenvolvêssemos

um maior conhecimento mútuo e abríssemos

um amplo campo de entendimento, para trabalhar

a consolidação de uma frente de esquerda mais

perene no Brasil. Evidentemente, esse processo, que

inclui ainda o PCB, PV e setores progressistas do

PSDB e PMDB, não superou todos os obstáculos. O

programa mínimo sobre o qual deve se assentar a

unidade popular e progressista, embora tenha nos

13 pontos do programa de governo da Frente Brasil

147

QUASE LÁ

Popular e nos 12 pontos do programa de Brizola uma

base inicial de negociação, ainda precisa ser debatido

mais intensa e extensamente entre as diversas

forças políticas que compõem o arco à esquerda, para

superar incompreensões, às vezes até semânticas, e

consolidar um suporte programático comum a todas

elas.

Outro mito que nós derrubamos durante a campanha

foi o de que não é possível fazer política com

ética e escrúpulos. Eram tantas as mazelas dos adversários

que seria muito fácil baixar a campanha ao

nível da sarjeta. À medida que caíam nas nossas mãos

dossiês de denúncias sobre os diferentes candidatos

das elites, chegou a crescer a tentação de mostrar a

verdadeira natureza de cada um, suas imagens farsantes

de honestidade e probidade. No entanto,

embora as evidências de veracidade fossem fortes,

as provas não eram concludentes. Além disso, muitas

diziam respeito à vida pessoal e não à atividade

política. Utilizá-las dessa maneira seria a tentativa

de criar condições de vitória no estilo do gangsterismo

organizado, mas sem contribuir em nada para

elevar a consciência dos trabalhadores e consolidar

a democracia.

Lula, em especial, sempre foi muito coerente nessa

linha de conduta. Mesmo em relação a Collor ele

constantemente afirmava que a crítica ao falso caçador

de marajás deveria ser em cima de sua carreira

política e não no campo pessoal. Até quando o

PRN subornou Miriam Cordeiro e desferiu ataques

imorais contra sua conduta pessoal, Lula mantevese

firme naquela posição. Essa foi uma contribuição

148

QUASE LÁ

inestimável para o futuro da democracia brasileira,

apesar de não haver mostrado resultados positivos

de imediato.

Outro mito, longamente acalentado pelo Império

e derrubado durante a disputa presidencial, é o de

que as propostas da esquerda ficariam eternamente

confinadas num patamar equivalente a 10% do eleitorado,

já que o povo brasileiro é nitidamente conservador.

Ao contrário disso, pela primeira vez na

história brasileira as elites dominantes tiveram que

confrontar-se com um projeto político, social e econômico

dos trabalhadores. Acostumado a apresentar

no mercado político variações de um mesmo projeto

burguês, com embalagens diferentes para mistificar

os interesses dos diversos segmentos sociais,

o Império teve que engolir essa realidade: estava na

praça, sem subterfúgios, uma proposta democrática

e popular que denunciava a selvageria do capitalismo

brasileiro e propunha uma nova sociedade que,

através da concordância das maiorias, deveria marchar

para o socialismo.

Para o Império, porém, tal proposta era odiosa

não somente pelo fato de desmistificar seu tradicional

engodo da conciliação nacional, de projetos que

aparentemente beneficiavam a todas as classes e

setores sociais. Era ainda mais odiosa porque ameaçava

a hegemonia cultural e política secularmente

exercida pelas elites. E, além disso, porque tinha

chances de vencer a disputa pelo governo, mesmo

sob as regras estabelecidas pelo próprio Império.

Isso foi um verdadeiro vendaval que sacudiu convicções,

crenças e descrenças, por mais arraigadas

149

QUASE LÁ

que estivessem, de todas as forças políticas. Na batalha

decisiva de 17 de dezembro, a esquerda englobando

seus vários matizes, perdeu mas conquistou

quase metade dos votos. Uma parte considerável dos

explorados e oprimidos rompeu com o conservadorismo

que o Império sempre lhe impingiu, descobrindo

que pode ter um projeto que corresponda

aos interesses das maiorias. E, que apesar de tudo,

tem chances de conquistar o poder.

As elites do Império terão de fazer um imenso

esforço para assimilar o fato de que não podem mais

continuar espoliando os trabalhadores e o povo da

forma como vinham fazendo até então. E também

para não se iludir com a sustentação que seu candidato

preferido, para vencer, obteve de parcelas pobres

e despolitizadas. Afinal de contas, bem vistas

as coisas, elas votaram por mudanças acreditando

num salvador da pátria. Mas Sassá Mutema não deu

certo nem na televisão.

5. O choro do sonho desfeito

Perto do final do primeiro turno, demos corpo a

algo que estava previsto no organograma da coordenação

nacional, mas não se concretizara ainda: a

equipe de fiscalização. Não era apenas uma estrutura

de mobilização de militantes para fiscalizar a apuração

das urnas, os boletins e os mapas eleitorais.

Mais do que isso, estávamos tentando entrar na era

da informática. Através da montagem de um sistema

de entrada de dados nos computadores, em forma

de boletins de urna processados por um progra150

QUASE LÁ

ma de estimativas, obteríamos resultados com os

quais a equipe e a direção poderiam ter controle

sobre possíveis fraudes e fazer projeções da votação

dos diferentes candidatos.

Para que esse sistema funcionasse, além dos grupos

de estatísticas e do centro de processamento de

dados era necessário possuir uma rede de contatos

nos municípios e uma equipe central de contatos

telefônicos, todos em linha para manter constante

o fluxo das informações. Todas essas equipes e grupos

trabalharam 24 horas por dia, em revezamento.

Foi isso que nos permitiu, no dia 17 de novembro

pela madrugada, dispor de uma projeção de nossa

vitória apertada sobre Brizola, projeção que se confirmou

somente no dia 20. No dia 18 de dezembro,

também foi com o auxílio desse sistema que a coordenação

nacional teve a certeza da derrota.

Durante todo o segundo turno a equipe central

de contatos telefônicos reforçou o setor de mobilização,

melhorando sensivelmente os contatos do

comitê nacional com os estados e municípios. Foi

fundamentalmente por meio dessa equipe que conseguimos

manter a coordenação razoavelmente informada

do que estava acontecendo na prática da

campanha em cada local e tomar uma série de medidas

para orientar o trabalho.

Os contatos com os municípios permitiram também

o surgimento de uma linha de solidariedade

especialmente entre os companheiros que trabalhavam

durante o fim da noite e as madrugadas, ocorrendo

vários fatos pitorescos. Um deles aconteceu

com Valdete, companheira do PT de Curitiba, Paraná,

151

QUASE LÁ

que na madrugada do dia 17 de novembro estava no

plantão, transmitindo os números dos boletins de

urna para o comitê nacional. Neste, quem recebia e

anotava nas fichas era o Marcelo, um dos diversos

plantonistas do horário. Minucioso, Marcelo se demorava

na conferência e pedia a repetição dos dados

antes de seguir em frente. Por isso mesmo,

Valdete se espantou um pouco quando, meio de chofre,

ele interrompeu o fluxo das informações para

dizer: “espera aí, Valdete, o chefe está aqui e vai falar

com você para dar uma força”.

No lugar do timbre macio do Marcelo, Valdete ouviu

uma voz rouca. “Como vai, companheira? Quero

agradecer o esforço de vocês e pedir que continuem

firmes na fiscalização. A disputa está difícil e a gente

não pode esmorecer um minuto. Um abraço em

todos os companheiros. Boa noite”.

Valdete não conseguiu dizer nada antes de voltar

a ouvir a voz do Marcelo. Pensou que era uma das

típicas brincadeiras de um horário como aquele: uma

e trinta da madrugada. “Valdete”, disse Marcelo, “não

perca o rumo. Vamos conferir os números. Agora

dobrado, porque não é toda hora que o Lula aparece

por aqui de madrugada para falar com a gente”. Só

então reconheceu o dono da voz rouca. Foi uma alegria

adicional à vitória do primeiro turno.

Por infelicidade, essa não foi a experiência que o

Paulo Fontes, outro membro da equipe de contatos

do comitê nacional, viveu na noite do dia 18 de dezembro,

na contagem dos votos do segundo turno.

O companheiro de Lençóis Paulista, em São Paulo,

transmitia os dados das diversas urnas do município

152

QUASE LÁ

e os resultados eram angustiosamente desfavoráveis

a Lula. A cada boletim lido cresciam os comentários

de dor e frustração do companheiro: “Não é possível.

Nós fizemos tudo direito. Trabalhamos duro.

Onde é que a gente errou?”

Pouco adiantaram os esforços para animá-lo. Do

lado de lá do fio o desespero foi crescendo até, junto

com o último boletim, explodir em soluços descontrolados.

Foi um choro sentido, o choro do sonho

desfeito.

6. Um doce sabor de vitória

As elites já não podem ter certeza de deter a hegemonia

sobre a sociedade brasileira. Grande parte

da população, dos estratos sociais mais baixos e das

chamadas classes médias, já não aceita sua influência.

Coloca em dúvida seus valores, questiona sua

dominação e quer mudar as relações que predominam

no país. É impressionante o espírito de vingança

dos pobres contra os ricos, que transparece mais,

por paradoxal que seja, justamente naqueles que votaram

no candidato do Império.

Isso obriga as elites a realizar uma disputa ideológica

e política para a qual não estavam acostumadas.

Não que tenham descurado disso, que tenham

deixado de usar eficazmente os meios de comunicação

e seus instrumentos de hegemonia e dominação

ideológica. A escola, a universidade, a família, as igrejas,

a imprensa, as artes, sempre transmitiram, predominantemente,

a ideologia do conformismo, do

sempre foi assim e sempre será, do uns mandam e

153

QUASE LÁ

os outros obedecem e do governo tudo pode. Ou

que tenham esquecido de usar, no momento certo

em que se apresentou o perigo da perda da hegemonia

e do poder político, o aparelho estatal coercitivo

para esmagar a rebeldia dos de baixo. Não, nada disso

foi esquecido.

Jamais como agora o poder e a influência desses

aparatos de transmissão ideológica e do Estado foram

tão poderosos, ou modernos, como gostam alguns.

Por outro lado, jamais a burguesia brasileira

teve tantos frenesis de contentamento com as mudanças

que estão ocorrendo no leste socialista. Ou

viveu tantos paroxismos de alegria como os decorrentes

da queda do Muro de Berlim e a introdução

da economia de mercado naqueles países. Nem intensificou

tanto como atualmente a campanha

anticomunista para contrapor-se à proposta socialista

do PT.

O problema não é esse. Se fosse, o Império não

estaria correndo o perigo de perder a hegemonia,

nem seu candidato e agora presidente teria que apresentar-

se, à revelia de parte considerável das elites,

como vingador dos pobres. Nem teria que fingir roubar

algumas das bandeiras que sempre pertenceram

aos setores populares. Ou viver a contradição de

aparentar uma postura contrária às elites, até mesmo

penalizando algumas das hostes do Império, para

dar a impressão de que penaliza a toda a sociedade

e, com isso, manter a aura de vingador dos descamisados.

Nem teria que se dispor a arrancar das elites

os anéis, se for necessário, para que não percam os

dedos.

154

QUASE LÁ

O problema, na realidade, é que os pobres – os de

baixo, os explorados e oprimidos, os de baixa renda

e sem instrução, os marginalizados, englobando a

maioria da população brasileira, mais miserável do

que os miseráveis da Índia –, mesmo não sabendo

direito o que querem, já começam a descobrir o que

não querem. Já começam a não querer continuar

convivendo com antagonismos de riqueza e pobreza

tão gritante num país que se considera a oitava economia

do mundo capitalista.

Embora não tenhamos conseguido enfrentar a

campanha anticomunista de forma ofensiva, nem

defendido nossa proposta socialista democrática com

a nitidez necessária, para essa população pobre que

vive sob o tacão do capitalismo este é muito mais

negativo do que qualquer símbolo distorcido do socialismo.

O muro da miséria brasileira é de uma realidade

muito mais pungente do que qualquer Muro

de Berlim.

Por isso, mesmo os que não despertaram, os que

acreditaram nas mentiras, os que embarcaram nas

promessas colloridas de uma vida melhor, os que

pensaram ter sua poupança a salvo do calote com a

derrota do Lula, todos esses, em sua grande maioria,

querem satisfeita a sua ânsia de mudanças. É

verdade que, no governo Collor, serão feitas mudanças

para manter tudo como antes. Mas não são as

mudanças desejadas por essa massa de milhões. Eles

não querem simplesmente que novas elites suplantem

as antigas, enquanto se mantém o mesmo processo

de espoliação dos milhões e milhões de brasileiros

que vegetam no limiar da miséria.

155

QUASE LÁ

Collor aguçou demasiadamente as expectativas.

Fez promessas e promessas, empenhou sua palavra

com gestos marcantes que ninguém esquece. Com

isso venceu. Mas ele próprio sabe que não é vingador

dos pobres e descamisados. Sabe os mil laços de

interesses que o ligam, umbilicalmente, aos capitalistas

internacionais e a setores econômicos poderosos.

Sabe que seus planos terão sempre que fingir

a proteção dos desprotegidos, mas na prática atenderão

aos mesmos interesses egoístas das hostes do

Império. Por isso, também terá que exercitar, cada

vez mais, a arte da farsa e da macaquice, para manter

a atenção popular desviada dos problemas reais,

anestesiando-a com o circo presidencial, sem darlhe

pão para comer.

Por tudo isto, ao rememorar a campanha, ao

relembrar a garra da militância e o ânimo, a alegria

e a esperança dos milhões de pobres que despertaram

para a felicidade, em comparação com a apatia

e o gesto mudo e envergonhado dos que depositaram

seu voto em Collor, não precisamos chorar sobre

o leite derramado. Os que votaram em Lula perderam,

merecendo ter vencido. Mas ao perder obrigaram

o Império a enrredar-se nas contradições que

servirão para despertar a metade que ainda tem

medo de ser feliz. Com nossa ajuda, é claro.

É isso que nos dá um doce sabor de vitória. E a

certeza de que a esperança continua mais viva do

que nunca.

157

QUASE LÁ

Neste texto não estiveram presentes nem foram

citados com a ênfase merecida muitos dos que participaram

da guerra que foi a campanha eleitoral

de 1989. Nas novelas e programas de tevê, lacunas

desse tipo são supridas pela lista dos créditos que

aparece no fecho, lista sempre extremamente maior

do que a dos personagens. Infelizmente, não poderei

imitar a televisão, já que muito provavelmente

a relação de todos os que deveriam ser citados

encheria mais páginas do que as deste livro.

De qualquer modo, para não cometer injustiças

demasiadamente grandes, é fundamental relembrar

a participação, na coordenação nacional, do grupo

de apoio jurídico, dos companheiros que garantiram

a distribuição de material de propaganda para os

estados e daqueles que conseguiram assegurar na

administração, um mínimo de funcionamento ordenado

no caos que parecia o comitê nacional. Vale a

pena reiterar o esforço de todos aqueles que travaram

a guerra da mídia no setor de imprensa e dos

que, nas equipes de rádio e tevê, souberam usar ao

máximo sua criatividade para compensar a carência

de meios materiais. E citar, mais uma vez, o desprendimento

e a competência dos companheiros da

informática e da estatística, que nos fizeram ingres-